segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

INICIAÇÃO AO TANTRA

Iniciação ao Tantra

 - O que uma pessoa comum precisa saber, o que ela precisa conhecer e receber diretamente de um Guru, e no caso, de um Guru Tantrico? Que tipo de conhecimento pode, de fato, trazer uma luz espiritual que não se apague jamais? Que tipo de conhecimento tem um valor perene que não seja reduzido e nem modificado pelas condições? Qual é a palavra verdadeira sobre a libertação? Como ter acesso ao poder, ao prestígio, a energia inesgotável do Universo? Que tipo de conhecimento pode ser dado por via indireta, que seja tal qual a tradição oral?

Segundo o Tantra, a vida, ela somente existe nas relações de Poder, que se chamou na Índia medieval de Shakti, inclusive o livro Shakti e Shakta de Arthur Avalon (Sir John Wodroffe), foi um marco na historia humana, e este viés, afirma que todas as relações são de poder,  e que ele é mantido por todos nós de um modo muito bem dissimulado, pois parece que buscar ter poder ou mesmo utilizá-lo, tornou-se politicamente incorreto na sociedade atual, e na verdade, a atual sociedade criou diversos mecanismos de dissimulação  desta nossa natureza. O que é este poder que é motor das nossas vidas? O que é Shakti? Milhares de textos criados de colagens, causaram um serviço de desinformação mais eficiente que a linguagem intencional das metáforas tântricas e hoje não se tem de fato um viés espiritual capaz de sustentar-se diante das exigências e da evolução da sociedade. Embora este conhecimento exista desde o século X dele vem sendo retiradas partes e colocadas em outros contextos gerando mais problemas que soluções para quem senta a necessidade espiritual. Pessoas sem nenhuma iniciação real, dada por um mestre qualificado tem causado mais prejuízo do que ajudado a humanidade.

A SITUAÇÃO
A primeira coisa que precisamos determinar é a “definição da situação” do ente, que podemos chamar de Eu, de nós, ou de Espírito etc. Esta situação de um Eu que vive pelo poder e dele dependemos em tudo para viver e mesmo existir, é esta situação que precisa ser definida como definitiva e inescapável, é melhor definir que somos devotos da Shakti, da força, do que acreditar que o homem é um selvagem sendo domesticado pela socialização, o que é uma grande bobagem sociológica. Nada mudou, somos filhos do poder, e apenas mudamos como operar este poder de forma que se torne imperceptível, que seja subliminar. Todos nós buscamos o poder nas relações em 100% do nosso tempo, e em nenhum momento não estamos buscando o poder nas relações, mesmo quando estamos conscientemente não usando nosso poder, o fazemos para estar acima dele, ou seja, ter um poder de compreensão acima dos demais. Quando você consegue definir a sua situação como adepto do poder, é quando você se torna um Shakta, um adepto do Tantra.

A relação de poder existe na medida em que algumas definições da situação são mais legítimas do que outras, e essa legitimidade é a resultante de quem tem o poder de propor e sustentar a definição das situações ao longo de um tempo maior, e de repeti-lo mais vezes. Então um segundo ponto na relação do poder é o uso da definição para tornar a relação “verdadeira”, legítima, esta definição é feita pelo uso da palavra, então a palavra já é a definição de um campo de força ou energia, e que cria uma realidade, uma relação de poder pela emissão do som, a palavra é mantra, pois é ela que dá o poder, pois ela define uma situação para si mesmo e para os demais. Definindo mal a situação podemos nos expor a outra forma de poder que é sempre uma forma fundamental de coerção social. Trata-se de buscar um resgate da sua situação nas categorias de "coerção social" que existem por aí. Quando você perde sua definição, perde seu campo de energia, e naturalmente precisa buscar apoio e reação nos outros, para sentir-se “vivo” então por definição um Shakta é aquele que dominou este processo de definição, ou seja, é capaz de interagir com os campos de energia dos demais, sem necessitar de aprovação, pois ele mantém seu próprio campo de definições,  como uma individualidade dentro do todo, e isto só é possível quando você pode “manter-se” ou ter um vínculo com seu poder, pois sua definição da situação está correta e pode ser posta a toda a prova. E então o Tantra nos fala de ritualizações nestas relações de poder, e as pessoas imaginam que tenham que fazer algum rito ou seguir um ritual, quando na verdade todas as relações de poder já são ritualizadas. Então se uma pessoa usa um tipo de roupa e se comporta de uma determinada maneira, é para dizer que pertence a um determinado grupo e que tem um certo tipo de poder. Naturalmente há um desgaste nas relações, pois elas só poderiam evoluir se houvesse uma mesma situação em andamento nas relações, e com as características pessoais mantidas por cada um, pois todos precisamos do Soma, de ter acesso ao nosso poder todos os dias.
Uma situação definitiva, requer um sentido do Poder, e este sentido do Poder, é ele que nos dá o Gozo, a inteireza, a iluminação que está ao lado, junto de nós o tempo todo, o que se chamou de Samadhi, um êxtase que nos acompanha. Então o Gozo é o sentido de algo realizável, sempre é no sentido da situação definida pelo poder, a Shakti. Não existe nenhum outro sentido do Gozo, ele está etimologicamente vinculado ao poder.

Os hindus tântricos medievais então imaginaram que este poder era tríplice, e assim denominaram três tipos de Shakti, três tipos de poder:
Ichhá, Jnana e Kriya significam respectivamente, o desejo ilimitado, o conhecimento ilimitado e a ação ilimitada, então o que nós chamamos de Consciência eles chamavam de Shiva, Relacionado  Shiva com Shakti, com o poder, eles emitem o que  são os chamados "três cantos" - Icchashakti , o poder primal da Vontade,  também conhecidos como Sadashiva ou Sadakhya, que é vontade de potencia de Nietzsche. - Jnanashakti  o poder primal do conhecimento " também conhecidos como Ishvara e Kriyashakti o poder primal de ação interior, também conhecido como Sadvidya.  Ou seja, “EU sou isto” é Ichhá shakti, o desejo ilimitado;  “ISTO sou eu” é Jnana Shakti, o poder do conhecimento e a terceira força ou poder está na duplicidade de “EU sou isto” e “ISTO sou eu”, o poder da ação.

Assim temos que o EU ou Shiva está unido ao poder de ser e podemos chamar Shiva-Shakti de EU SOU com sendo a raiz do universo e que a partir desta união inseparável surge um terceiro elemento que é Icchá Shakti e que é o EU sou isto, a primeira inclusão de um objeto, e que representa a vontade de potencia universal de ser, uma vez que tal poder esta bloqueado para ser ele mesmo diretamente, assim não poderia ser EU SOU EU, pois necessita de um objeto externo. E por isto o Eu é Anatman, ou destituído de Alma ou espirito, pois o espirito na verdade é a energia do Eu, a Shakti, logo não existe uma evolução espiritual, tudo que pode ocorrer será e estará restrito a necessidade de ser do Eu pela sua força, pelo seu poder, no caso, de ser pela energia da Shakti. Desta forma tudo que rodeia o Eu será imediatamente capturado como sendo sua extensão mesmo, como um ISTO a ser incorporado como extensão de seu poder.

Cada etapa destas é denominada de Tattwa ou de etapa, sendo a primeira etapa da evolução da força, o EU SOU, Shiva e Shakti e sem seguida o “EU sou isto” a primeira captura de algum objeto externo, este poder é que se chama de Icchá, e em seguida, surge o “ISTO sou Eu” pois agora o objeto faz parte do Eu, foi incorporado e este poder de incorporação se chama de Jnana. Como resultado do processo anterior, surge a possibilidade de alteridade entre os dois momentos, a atividade interna como sendo “EU sou isto” e “ISTO sou Eu” e com isto é criada o que chamamos de consciência interna, ou mente.

Relacionando os cinco poderes temos:

EU – Shiva o poder absoluto.
SOU – Shakti, a força absoluta.
EU sou isto – Ichha, a primeira força.
ISTO sou Eu – Jnana, a primeira criação, a segunda força.
EU sou isto e ISTO sou Eu – Kriya, a atividade interior, a terceira força.

Pelas três forças acima o ente surge com um Ser capaz de capturar o mundo externo através dos sentidos e assim surgem cinco forças secundárias, ou capacidades limitadas, mas que existem como resultado das três forças fundamentais. A capacidade de ver a parte é a primeira destas forças, então a consciência que tem todo o poder ilimitado e tem a atividade interior, Kriya, agora pode ver um único objeto e separá-lo do todo (Kaala), a segunda capacidade é a de conhecer esta parte limitada quem tem origem na força Jnana (vidhya), a terceira força secundária é a de ter uma ligação ou experiência com a parte limitada advinda da Iccha ou vontade primordial (Raga)), e quarta força secundária diz respeito a capacidade de ter uma noção do tempo, gerando um passado e  um futuro, mas com total incapacidade para ter a noção do presente (Kalaa) e esta força vem da Shakti como SOU. E assim temos a quinta força secundária, a capacidade de ter uma noção de espaço e forma gerando a noção de estar realmente ocupando um corpo em um determinado espaço (Nyati) e esta força é um reflexo direto de Shiva ou do EU.

Então temos que as cinco forças primeira geram mais cinco secundárias Kalaa que é a raiz de nossos sentimentos de impotência, mas nos dá a capacidade de ter poder e capacidade limitados a algo. Vidya dá origem à experiência de conhecimento e da compreensão limitada, Raga dá origem à sensação de estar sem uma força de vontade infinita, mas à mercê dos  desejos limitados; Kaala encobre o momento infinito supremo que é presente e dá origem à experiência do tempo sequencial, e Niyati encobre o suprema onipresença da consciência ou do Eu mas dá origem ao senso de separação de todas as outros “Eus" no universo.

A união das cinco forças ou energias em torno de um único ente produz a individuação ou o que denominamos de “Homem” capaz de vivenciar uma realidade objetiva e subjetiva o que se denominou de Purusha, o homem que convive com sua energia nutriz, com o conjunto de forças que é próprio dele e que se chamou de Prakrti. Então cada pessoa tem sua força, que é o resultado de todo seu processo exterior e agora ele precisa possuir instrumentos interiores capazes de fazê-lo lidar com a realidade objetiva, externa, sem estes instrumentos ele ainda seria um animal.

Agora este homem pode fazer distinções internas, compreender subjetivamente, esta força se chama de Buddhi, que novamente é a força ou o poder de compreender, ele também pode ter a posse das suas experiências, ter memoria delas, e esta força se chamou de Ahamkara e este homem pode sintetizar suas impressões em conceitos e imagens e esta força se chamou de Manas ou o que chamamos de mente.

Quando se fala de poder e de força, o homem está neste ultimo poder, está na força Manas, exercendo o seu poder percebendo o mundo pelo limiar do que suas impressões trazem a ele naquele momento não havendo nenhuma evolução e sim uma involução, pois ela está na mente fazendo o circuito contrario ao da criação, desta ultima força para a primeira força, então o poder cósmico agora é involutivo, e deve leva-lo desta ultima força até a primeira força se ele quer conhecer a si mesmo e o universo que o rodeia. Logo temos 15 forças ou Shaktis atuando no homem e todas elas se refletindo na ultima força, na mente, na apropriação das sensações e na compreensão.

Enquanto você respira estas forças são ativadas mantendo o corpo e a mente com energia advinda do som sutil, pois tudo que foi percebido tem um nome e uma forma e foi conhecido e então faz parte do universo interior deste homem, e por isto eu posso parecer arrogante ao dizer que as pessoas falam e ensinam sobre a “vida interior” ou “espiritual” sem a mínima noção do que isto significa, a vida interior é a vida das forças e do seu Poder. Tudo que existe para nós nos chega codificado pelas 13ª, 14ª e 15ª forças, como um resultado deste processo e  você não deixará de ser assim mesmo que seja submetido a um treinamento profundo em Tantra. Pois este processo de involução, da mente para o Eu, é o que se chama de Moksha ou libertação, então a vida do ente serve para ele ter experiências em um corpo e em uma mente, pois de outra forma o EU é apenas um morto vivo, como diz um velho ditado tântrico que Shiva sem Shakti é apenas um cadáver.
As experiências deste ente são o Gozo ou usufruto da vida, através da energia ou força, não existindo nenhum fim que não seja a própria experiência em si. Por este motivo quem busca o isolamento do Eu como meta, busca uma ilusão e somente encontrará uma vida de sofrimentos atrozes. Quem busca um Eu ético ou moral também encontrará dificuldades, pois são qualidades sociais, humanas.

Então temos:

1ª Emanação do poder Shakti, ou Universal
Shiva (eu)
Shakti (sou)
Icchá ( eu sou isto)
Jnana (isto sou eu)
Kriya ( eu sou isto e isto sou eu)
2ª Emanação do poder Shakti, ou poderes limitantes
Kalaa
Vidhya
Raga
Kaala
Niyati
3ª Emanação do poder Shakti, ou poderes Individuantes
Buddhi
Ahamkara
Manas
Prakrti
Purusha
Sistema Shakti Path º - Mestre Bhava 1996

O Tantrico não quer ser libertado da natureza, nem dos seres humanos e nem mesmo de si próprio, pois a compreensão das forças do poder  nos levam a concluir que vivemos um milagre, existir, ver, sentir cheiro, amar, sofrer, ser feliz, etc. Tudo é uma experiência rumo a um aprofundamento do mesmo processo e a sociedade é apenas um reflexo distante da nossa real condição,  e ainda, de que a condição iluminativa é apenas estar junto, ao lado, da experiência de ser. Logo o êxtase de estar separado de tudo, tão cultuado como Samadhi, é apenas o começo de um processo de estar junto, naturalmente a pessoa primeiro busca separar o mundano do espiritual para poder ter uma compreensão ou vivência do espiritual, e depois começa a fase tântrica quando o mundano se torna cada vez mais espiritual pois ela mesma não faz mais esta distinção, ou seja, ele está se aproximando da experiência, e ela agora é ao mesmo tempo mundana e espiritual e por fim a experiência mundana é exatamente a experiência espiritual.

Cada grupo de crentes segue a doutrina de sua espiritualidade, e todas elas são partes de um todo, pois cada uma delas visa atender a um determinado tipo de demanda dos fiéis, e a cada dia temos forças diferentes exigindo de nós algum tipo de ação. A natureza humana segue a força, se algo dá certo, ele crê, se algo não dá certo ele descarta e busca se unir a um sentido onde ele possa se sentir mais seguro e ter experiências mais gratificantes, nenhum ser humano está aqui porque foi inocente a ponto de ser puro, desde bem pequenos buscamos o lado da força em todos os aspectos das nossas vidas. Se vamos a uma festa ou fazemos viajem e sentimos a força lá, logo passamos a defender e estimular outros a fazerem o mesmo, no fundo nós queremos o bem do próximo. O Tantra não possui um formulário que ensina a todos como lidar com suas forças, em vez disto o Tantra nos ensina a se conectar com a força, e com o sentido dela, o que um mestre de Tantra faz é exatamente lhe levar de volta para este caminho que você já trilhou desde pequeno. Uma pessoa que tem poder tem a capacidade de se conhecer e criar em si uma condição passiva e benévola, mas uma pessoa desconectada de seu poder, agirá de modo destruidor e predatório, pois entende que assim se obtém sua força. Há o risco do Narcisismo, da eugenia, e muitos falsos mestres prometem ensinar comportamento ou etiqueta, ou regras morais como se isto fosse um caminho seguro ou verdadeiro, na verdade Shakti é poder, e bem como assinalou Nietsche, a vontade de potência é do Espírito humano, sem ela surge o homem ladino, que é destituído de vigor e de qualidades morais.

INICIAÇÃO PRESENCIAL
Desde o ano de 1986 que eu venho dando a Diksha que é a iniciação formal pelo sistema Shakti Path, que na verdade trata-se de uma transferência de energia ao iniciante, para que ele vivencie a energia e assim encontre em si mesmo o caminho para se conectar com sua força, e desta forma ele possa reconhecer quando está alinhado com a força. Neste sistema tradicional existem duas vertentes. Uma é chamada de espontânea ou NYASA-SPANDA, quando o iniciante percebe que se conectou com a força, e a outra vertente é pelo uso do poder imposto pelo iniciador, esta força que se chamou de Hatha, e se chama de NYASA-HATHA, e esta segunda forma é mais indicada para quem tem treinamento em Yoga, Pilates etc. e a primeira forma serve para qualquer pessoa. Na primeira forma usa-se o mantra não associado ao Prana e na segunda forma se usa o mantra associado ao Prana. O papel do Guru não é o de ser um guia e sim de ensinar a pessoa a se reconectar com sua própria força, e para tal se usaram de muitos artifícios, como locais, preparações, psicologia, música, dança etc. Na verdade estes artifícios são dispensáveis, pois apenas servem para infundir confiança no iniciador, o que para o Tantra, é dispensável.

PÓS INICIAÇÃO
Após a iniciação os dois grupos seguem caminhos distintos, os adeptos da força Hatha fazem sua meditação sentados do modo tradicional e os adeptos do método Spanda fazem na atividade diária e se chama  de meditação dinâmica. Ao longo do tempo se percebe que as mulheres preferiam o método Spanda e os homens preferiam o método Hatha mas na prática isto não se tem mostrado muito útil, e pela minha experiência a imensa maioria das pessoas devem se conectar pelo método Spanda, é mais fácil e o método Hatha deve ser para pessoas mais treinadas.

INTEGRAÇÃO DOS SISTEMAS TRADICIONAIS
Segundo o Tantra tradicional, tudo surge do som, Shabda como manifestação, e logo surgem as possibilidades de produção de sons como um alfabeto chamado de Devanagari, e assim um corpo Sutil, um corpo sonoro, ou vibracional, Spanda, em que as letras estão distribuídas da seguinte forma:
Original de V. Krishnaraj
A correspondência entre o Sânscrito e o Latim ou outras línguas Indo européias não altera o fundamento de seu sistema energético, que é sempre o mesmo, e quase todas tiveram sua origem no Sânscrito. Segundo Roland Barthes o Sânscrito é a mãe das línguas.

Logo Mantra, é todo e qualquer som que emitimos e em qualquer língua, pois o poder não está na exata correspondência do som, e sim na representação daquilo que emitimos, existem mantras que são realmente Universais, mas são somente 4 deles até hoje. Nestes 4 mantras há uma exata correspondência entre a vocalização (Shabda) e a vibração (Dhvani) em qualquer pessoa, de qualquer cultura. Por este motivo existem os cuidados na Diksha no sistema HATHA em que o meditador não pode produzir estes sons na sua boca, pois o Guru está pronto para lidar com a força do Inconsciente quando ele usa estes sons.




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sexta-feira, 8 de julho de 2011

O que é Meditação - Dhyána

...Talvez eu não tenho dito nada de novo sobre esta relação entre a Alma (Jiva ) e o Espírito (Ishvara), mas se você prestar bem atenção no que eu disse antes, como as três Formas nesta relação (Granthis), como a primeira sendo a Percepção, a Forma , e a segunda o Nome da Forma e a terceira como a identificação do Ideen, estes nomes em sânscrito são Sthula,  Jyoti, e Suksuma, em Sânscrito, pois a filosofia ocidental nem sequer chegou aí.

Sthula – A Identificação pela percepção, pela Forma
A Forma ou a Percepção chamado de Identificação pela Forma, é um poderoso meio que todos nós usamos para valorizar a nós mesmos quando percebemos algo negativo, e é um poderoso analgésico emocional quando identificamos algo no Outro do Outro que achamos bom, legal. O mundo das pessoas gira em torno destes dois sistemas de identificação, ora com o Outro do Outro, ora consigo mesmo na negação do outro, há muito para ser explorado aí, e nós mal conhecemos isto.

Jyoti – A identificação pelo Brilho, pelo Nome da Forma
Neste tipo, já há um Sentido a ser buscado, já existe um nome a ser seguido, uma luz que pode vir a confirmar a nossa confiança naquele nome ou então poderá ser negativo, apagar esta confiança naquele nome. Esta identificação é mais sutil que a anterior, aqui já existe uma confiança, um vínculo, a ser confirmado ou quebrado.

Suksma – A Identificação pelo Ideen.
Neste tipo, que é a evolução natural dos processos anteriores, nós como Jiva nos identificamos completamente com o Espírito, com aquilo que ideenalizamos, e não pense que você não sabe como seja esta ideen-alização, todos sabemos. Veja que esta identificação somente pode ocorrer se ocorrer um processo de recalque, tanto das idealizações positivas quanto as negativas. este é o Ideen, o gozo sem o Outro do Outro e sem o Sentido.

Em suma, são estes três processos que um iniciado deve conhecer, e tem mais uma coisa a ser dita, isto ocorre com todos nós, o conhecer é somente para tomar ciência do que seja de fato o tantra. A Alma (Jiva) vê para fora mas não enxerga, só identifica pela Forma (Sthula) do Outro do Outro, e depois enxerga para dentro, pelo brilho do Sentido (Jyoti), quando algo é verdadeiro ou não, passando para o Jiva a sensação de confiança naquilo que conhecemos ou então passando a insegurança do Ideen, pois aquilo não é confirmado pelo Espírito (Ishvara) E isto é a Meditação, precisamente. As vezes ocorre no sono sem sonhos, mas pode ser aprendida por qualquer um.



terça-feira, 19 de abril de 2011

Desejo - Representação ou Idéia?


Parte I

Desejo e Representação


O desejo somente é tratado unilateralmente na crença ou pela metapsicologia. Na sua origem e uso pela Psicanálise ele se relaciona a Representação ou Vorstellung, pois abrange mais que o sujeito, mais que o ser. É comum nos autores que desconhecem a obra de Freud relacionarem o desejo a idéia ou ao sujeito. O desejo nem é só do sujeito e nem é somente do Inconsciente, ele é duplo, ele é o operante do inconsciente no sujeito e deste no inconsciente, assim ele representa no sujeito aquilo que é trazido do inconsciente e que o afeta, em um dado momento.


A idéia já é uma projeção do sujeito, projeção, transferência feita em função de um outro, ou seja, um desenvolvimento do desejo, e da representação do Signo. O signo é o traço unário, comum a todos presente no Inconsciente e por esta razão os hindus criaram Maya como aquela parte do inconsciente que afeta a psique (jiva); e Mahamaya como todo o inconsciente, que afeta a todos os Jivas. O fenômeno se faz representar como operação entre Maya, na ligação entre o Jiva e o Inconsciente, e se dá pela busca da identidade, Kundaliní, como comparador universal.


Portanto o desejo representa o biunívoco operando como representação de si mesmo, produzindo a vontade, as idéias e também produzindo a comparação destas com o eu ideal, com o “senhor”, com seu si mesmo ideal - Ishwara. O ser fantasmático que é a Alma não deseja buscar a si mesmo(sic), mas é desejado, representado enquanto houver mais um outro no Universo. Pois Ishwara é o eu livre de qualquer lugar, tempo, e necessidade, portanto fora do inconsciente, livre de Maya.


Logo o desejo de voltar a ser aquele eu ideal não é o motivo do desejo, tudo que a Alma não deseja é ser este eu ideal, ela deseja ser este eu ideal, para os demais, através deles, e não para si mesmo, e então paradoxalmente quem chegou a conclusão da existência deste eu ideal, Ishwara, sabe que o desejo e o gozo já são o ser e o ter, não há outro, este outro ser e ter idealizado nada mais é que o uso do outro, para ser, algo impedido no Yogue.


O desejo como representação legítima de si mesmo, portanto, é inescapável. E se por um lado temos o Desejo, ele requer um Gozo, gozo este que reivindica para si a manifestação, que é comum, que é de todos. É do Inconsciente. Por mais  nobre, ou inédito que seja esta representação, ela será recuperada pelo mesmo processo que a criou, ou seja, será tomada novamente pelo Inconsciente, deixando o desejo sem o sentido que o fez se representar.

Um pensamento estruturante, ele segue adiante, representa e perde, pois o desejo quer sua perda. A perda como Gozo representa a possibilidade de continuidade, de um pensamento estruturado e aberto para novas representações que lhe serão dadas pelo Inconsciente. A lógica da Biunivocidade é atingir esta continuidade, entre a representação e a perda, para uma nova significação, o que coloca o Sujeito ao lado, junto da Consciência, pelo tipo de relacionamento que ele tem com o Inconsciente.

O pensamento desestruturado mantém o laço com o desejo, com a representação, atando a idéia ao sujeito como se ele fosse o autor dela, e não uma representação dela, da idéia. A idéia já escapa da estruturação do pensamento, e gera novos sentidos a partir dela, sentidos estes em que o desejo seja dominado, e determinado pelo sujeito. Desconsiderando assim o Inconsciente como fonte. Negado o Inconsciente fica negado o que é comum a todos, em que o sujeito se apresenta como autor legítimo, daquilo que é de todos. Muitas vezes este tipo de conduta é conveniente em uma sociedade como a nossa, pois se podem unir idéias diferentes e produzir um tipo de saber robusto e com sentido, mas que não tem continuidade, a não ser como discurso de ciência, em que muitos falam sobre a mesma coisa.

Na biunivocidade do Tantra, entre a representação do desejo e o seu usufruto, a ligação é de dentro a dentro, por dentro de todos os sujeitos, feito pelo Inconsciente. Não há a produção de um saber de muitos, o comum é interno, espiritual, e satisfaz o sujeito sendo ele mesmo a instituição, o que é o humano.  Logo o desejo como representação e não como idéia, insere o sujeito como ser espiritual, as idéias o colocam como ser das instituições, da produção, onde o Gozo é o pagamento como reconhecimento por estas produções.

As idéias atendem ao social e a representação atende ao pessoal, e estas são as duas faces do Desejo: O Ser nele mesmo, ligado a tudo pelo Inconsciente e como o Ser na sociedade, negando o Inconsciente, mas sendo porta voz da idéia.

Pode a primeira vista parecer que o desejo como representação seja um discurso barrado, e não livre, e que a idéia seja o discurso livre; entretanto é o posto que se dá, pois a representação é que é um discurso de liberdade, da possível liberdade, e o das idéias é o discurso perdido, onde o sujeito está barrado pela idéia, pelo desejo que ele se apropria como sendo dele, totalmente dele.

A representação atende a inesgotabilidade que a idéia não possui pois ela precisa do outro e da produção, sendo portanto limitada. É este aspecto dentro-a-dentro, da representação que coloca o sujeito no seu lugar, onde ele pode pensar estruturadamente, e de forma contínua. É no aspecto fora-a-dentro que a idéia pretende ser comunicação, advinda do sujeito, como origem da projeção, a negação do Inconsciente.

Assim a cultura pode ser uma comunidade das idéias como representação dos sujeitos, ou pode ser a representação dos sujeitos, em que as idéias sejam apenas os laços de poder, admitidos como idéias para justamente negar os sujeitos. O mal estar vem deste saber, saber que aquilo que nos chega como cultura é um convite na participação social, pela negação de nossa relação com o Inconsciente.

É esta reconciliação impossível, o que nos faz sonhar, e reparar as faltas cometidas, reparar a apropriação indevida, que fizemos do bem comum – Inconsciente.

O sonho é o gozo reparador do lugar da identidade, ele nos confronta com as idéias, para reparar a negação que fizemos, conforta e expia a culpa, e voltarmos ao ponto em que temos escolha. Representamos ou somos a origem?

A identidade é o fenômeno reparador, atualizador de si mesmo. E ficam algumas  perguntas:

- O que é que pode ser chamado de seu?
- Como lidar com o meu e com o seu?

A inspiração como continuidade, se dá no plano da representação, e apresentada como tal, é aceita como idéia, pelos outros, pois liga o sujeito a algo mais, que todos tem.

Parte II

Percepção e Identidade

O desejo como representação não explica como surge, ou como um determinado sujeito se faz representar: será que ele é possuído pelo desejo? Ou será que ele possui o desejo? O desafio está entre Ich e Es, entre o Eu e Ele (Isso), ou ainda Ego ou Id como queriam alguns. Freud usa investimento, investimento libidinal, como Carga, Catexia etc Assim os interpretadores de Freud o vêem como um produtor de conteúdos operacionais. Mas na verdade este mecanicismo não existe.

Para atalhar o percurso, pois esta discussão pode se prolongar por séculos, entre uma retórica e a teoria de um conhecimento operacional:

 O desejo como representação, ocorre entre o Eu e o Isso, a coisa que este sujeito percebe, como não sendo ele, e logo, sendo ele. O “Eu sou Isso”, e logo o “Isso sou Eu”. A pulsão é a carga que Ich (Eu) e o Es(ele) faz, para investir em algo, tomado como sem propriedade, livre, solto, do Inconsciente. O desejo não é uma atração do Ich (Eu) por um Es(ele)[1], e sim o momento seguinte que faz com que este Es (Ele) se represente neste Ich(Eu) como um Isso.

A questão é porque o Ich toma algo, como coisa de um outro, e o torna seu ao denominar de um Isso?Resposta: Isso é algo sem dono.

Portanto é de todos, pois aquilo que é do outro, precisa ser negado para ser seu, pelo Isso, pelo que chamamos de conhecimento. Teoria do conhecimento.

Não há como ser algo, sem que se negue este outro, sem que se faça o Ele ser um Isso, reduzindo-o a um algo, como coisa, para depois ser possuído, e assim é feito o investimento libidinal, vindo do Inconsciente. Quando o Isso já é seu, os restos desta operação fantasmática precisam ser triturados como lixo, negado e denegados, pela identidade depois, como Sonhos.

A identidade agora é outra, teve que fazer esta operação, e tem que fazer senão não haveria identidade, seriamos apenas citadores, e depois críticos, para no rolo do conflito, reformados pela peleja, teríamos que nos reconhecer publicamente como seguidores daquele Isso. É isto que os Gregos tentaram fazer, tornar a psique, pública, aberta, exposta. Logo, pela manipulação destes discursos, pessoas como Sócrates tiveram que cometer o suicídio ao verem suas colocações postuladas como um denuncismo, ou seja, muitos ali não eram públicos de fato.

O inconsciente é o resultado do Ich, do Eu, e do Es, Ele, pois a Psique tem que fazer isto, negar e denegar, para ser. Os gregos estavam corretos, tudo que é dito, é público, mas a linguagem pode fazer exatamente isto – conhecer. Entretanto o conhecedor é alterado pelo conhecido.

A partir desta incorporação o Isso desaparece como Ich (Eu), ele é Moi (meu) e surgem novas necessidades no sujeito, advindas de uma nova representação, como desejo, intencionadas como idéias, para justificar a sua posse.


Merleau – Ponty  diz que “O abandono da imanência da subjetividade ou quando o ser humano se depara com algo que se apresenta diante de sua consciência, primeiro nota e percebe esse objeto em total harmonia com a sua forma, a partir de sua consciência perceptiva. Após perceber o objeto, este entra em sua consciência e passa a ser um fenômeno.”
Logo aquilo que ocorre entre o sujeito e o objeto, é um fenômeno, pois a subjetividade, é imanente, ou seja, ela é um zona neutra, uma terra de ninguém, um vazio, a ser preenchido a partir da identificação do sujeito com o objeto, que o sujeito reivindica para si, vejam bem, todo ser da mesma espécie tem em si a imanência da subjetividade. No momentum que o sujeito reivindica para si, e ele o faz porque este objeto o representa de alguma forma, neste momento, e naquele instante o sujeito anterior precisa ser abandonado, e isto é o subjetivo, pois neste momento entre o abandono de si mesmo, e a identificação com uma outra imagem, é o fenômeno que produzirá dois eventos:

TAN - A Imagem aceita toma posse do sujeito.
TRA - A Imagem negada que de alguma forma entra em contradição com a nova imagem vista é recalcada, negada em si mesmo, no próprio sujeito. Mas não pode ser um Isso ejetado deste sujeito, esta parte rejeitada precisa ser colocada a disposição de todos, como projeção desta negação, nos outros, como sonho, como discurso, linguagem.

Logo o sonho e a linguagem não significa o novo, aquilo que foi introduzido no sujeito pela percepção, mas aquilo que foi deslocado pela nova imagem, e justamente esta nova imagem introduzida no sujeito é Yantra, que produzirá uma justificativa, uma elaboração para remover a diferença, naquilo que ela deslocou, quero dizer que esta símbolo novo, Yantra produzirá este deslocamento, pela significação renovada, e mantida como um novo discurso, a partir de agora, como Mantra, linguagem.

O sonho atua como uma forma de elaborar um discurso que possa dar conta, do que foi deslocado, este novo discurso de um novo sujeito, é o Mantra, a palavra.

Então sempre temos uma expansão do sujeito e logo temos sua retração, TanTra.

A parte negada precisará ser colocada em um lugar onde ela possa estar lá e ao mesmo tempo não estar, até que seja trabalhada, resignificada em outra coisa – pelo sonho, pela linguagem. Logo o sonho e a linguagem, não são produzidas diretamente pelas novas imagens e sim pelas que foram recalcadas, deslocadas, por elas, pelas novas imagens.

Com isto exposto, posso lhes dizer que não há um Eu Transcendental e sim um Eu que é capaz de transcender a tudo, e o fenômeno, como Kundaliní, é a identidade deste eu diante do objeto, que é ele mesmo. E com estas considerações já posso lhes afirmar que o Eu busca ser- ele mesmo, mas ele não deseja isto, ele é assim, ele é transcendental, logo não há intenção ou desejo de ser outro, há sim uma pulsão de continuar representando o  ser transcendental. O desejo representa isto, a característica do Eu, Ich, Ishwara, etc, ser ele mesmo. Em nenhum momento o Eu deseja ser outro, ele não precisa, pois ele pode ver, imaginar, ser atingido, e ser este e qualquer coisa, pois o fenômeno lhe permite.

Logo, o Inconsciente existe como suporte a este Eu, como uma zona para a negação. Que está livre, e sempre se liberta quando se desfaz dos restos pelos sonhos e pela linguagem, ou pela meditação, mas que volta a desejar, e se representar novamente.

A identidade diante de uma imagem, ao ser atraída para ter de se refazer, não é um mal, ou um problema, ela é assim, ela não pode ser apenas o que ela foi!

O desejo representa o fenômeno da identidade, mas não para o próprio indivíduo, nele é subjetivo, logo o Eu não deseja ser outro, não, ele não tem desejo, ele apenas representa aquilo que ele é. Nenhum Eu toma todo o outro Eu para si. E aí a filosofia oriental traz conceitos que são novos no ocidente:

            Tan e Tra – o fenômeno da percepção, a capacidade do Eu ser; e o fato de assim estar junto, colocar-se ao lado de(Samadhi), daquilo que é definitivo – a Consciência.

Meditar é um meio que me é dado, por um outro, de ser ausente de mim mesmo, de assistir de dentro a ruptura do ser, somente no final da qual eu me fecho a mim e volto com uma nova percepção. E o Gozo são para os outros imaginados, que me vêem.

Enquanto houver outro me dando este meio, eu posso ser eu mesmo.

Finalizando - o desejo como uma idéia, se apresenta como um discurso para muitos, e o desejo como representação, é a forma da identidade ser, ser ela mesma, pela percepção, apartir de Kundaliní, do fenômeno. A idéia como desejo não diz respeito ao Ser, ao Eu, e sim a possibilidade de produção de um produto, como ciência ou especulação, para os demais, e não para um outro Eu especifico, logo não há um vínculo do desejo como idéia, visto ser ela uma representação para outros, produto da linguagem e da elaboração onírica, produto que tenta ser comum aos demais e ao mesmo temo diferente. Há aí uma contradição, pois o próprio sujeito representa ele mesmo o processo da identidade, e todo modo de produção, de um conhecimento comum, entra no campo das idéias, uma intervenção artificial no processo espiritual. Eis aí o Mal estar da civilização diagnosticado por Freud.

O desejo como representação é o ponto onde se é para si mesmo, como identidade que representa-se pelo desejo, fenômeno de  possibilidade, das possibilidades sempre abertas, de dentro a dentro e não de dentro para fora, nesta ultimo caso, a idéia, e no primeiro caso, de dentro a dentro, como espírito, da mesma Consciência.

O ponto que uma pessoa pode entender é que o processo da produção do conhecimento, e do acesso a ele, é atributivo, atribuímos valores aos símbolos, para que eles possam ser usados de forma comum, por todos nós. Neste aspecto, objetivo, nós produzimos uma civilização que cria os valores, cria uma ciência, que como fórum, decide se estes valores são comuns ou não.

Neste aspecto não podemos falar de desejo como idéia, pois aí o desejo é a necessidade do sujeito viver no mundo, no campo das idéias, aprender e participar do mercado de trabalho, do network. Mas o que este sujeito precisa entender, e aqui é este o objetivo, é que o desejo em sua origem como fenômeno, independe das idéias, esta parte subjetiva, é dele, é espiritual, é o que o leva a dormir e acordar todos os dias. E o desafio é esta convivência entre o que desejamos, pois representamos aquilo que somos e o que desejamos para ser necessários na sociedade, como força de trabalho.

O desejo como representação começa a cumprir seu papel, quando o sujeito é capaz de imaginar, ter uma vida privada, sem confronto com o seu papel no desejo como idéia, como sujeito da sociedade.

Segundo os Gregos, nos princípios da civilização ocidental, nenhum sujeito da sociedade poderia ter vida privada, tudo era público, e isto atrasou muito a evolução da nossa sociedade, com uma filosofia baseada nestes conceitos. Então nós ocidentais viemos do público para o privado e os orientais vieram do privado para o público. Para saciar esta falta de uma vida privada, as religiões produziram que as ocorrências eram o produto de um destino, sem a possibilidade do indivíduo ser ele mesmo independente das ocorrências na sua vida. Assim as religiões vieram dar um suporte que faltava, as justificações para um mal estar produzido pela sociedade.

Desta maneira a imanência subjetiva do ser é a identidade, ela foi levada aos homens pelas religiões como um campo espiritual, que explicava o mundo, as necessidades, e as dificuldades, como produtos do desejo. Mas o desejo que produziria tal mal estar não vinha da representação que o sujeito faz de si mesmo pelo processo de perceber o mundo e sim da sua transformação posterior em idéia, colocada no mundo, para que o sujeito se insira nele, e se represente pela idéia, e não pelo que ele é.

A parte espiritual é o encontro com si mesmo, algo que fazemos como força de renovação, de desejo como representação, de si para si mesmo, como fenômeno, como identidade. Mas no momento em que falamos, produzimos um discurso para outro, já como idéia, como Mantra, como palavra. Começamos a entrar no mundo filosofia de ser, do Tantra, quando entendemos esta interdição que a imanência subjetiva produz, como identidade, como fenômeno.

Este diálogo interno e externo que produz a continuidade do ser, pois nenhum ser suportaria viver mais que alguns dias sem ele, ele é feito pela identidade, como uma meditação pela percepção. A nossa manutenção como identidade autônoma, é o que nos permite viver no mundo, se não for assim, há a degeneração psíquica com todas as formas de projeção conhecidas, e isto é feito pela linguagem, como Mantra, mas o fenômeno nos lança para dentro, projetados pelo Yantra, pela imagem identificada pela similitude com o outro no plano espiritual a partir do corpo. Protótipo para a Consciência.

As religiões do mundo como instituições no mundo, não atendem, e jamais deram suporte algum, pois elas não podem lhe dar a identidade, somente você pode fazer a partir destes esclarecimentos vindos do Tantra, a única filosofia que coloca o mundo espiritual como identificação daquilo que somos, no mundo, como corpo e como Alma, e como seres que são parte da mesma Consciência.


[1] Neste viés Ich, o Eu, só pode ser atraído por algo que fosse  identificado como contendo uma representação sua, assim ativaria o processo fenomênico, pois o que é igual não atrai outro igual pelos motivos da apropriação, e sim pela similitude de forma, corpo, espécie etc logo o fenômeno é a identidade entre os seres, que produz um espelhamento, e ele uma imanência subjetiva, a identidade.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Separados pela Linguagem - Parte VI - Shiva, a Eudade

Antes de Ler, leia a Parte V




Se é o desejo que(m) faz o sujeito, é ele que pode ser categorizado. O objeto que vem do desejo é um sujeito, um Fantasma gozante, o Jiva. E, como veremos, é a sua posição o que marcará como, e por que este sujeito age.

A tese de que o sujeito seja uma Alma e que contenha nela uma essência, um núcleo espiritual, e em contraponto o desejo seja uma vontade, adquirida ou herdada, que lançaria este sujeito ou Alma em uma confusão existencial, bem esta tese cai completamente quando este sujeito , é ele mesmo o produto do desejo. Logo não existe objeto filosófico algum, que não seja o próprio sujeito como desejo, produzindo um objeto como se não fosse ele mesmo, o criador. Uma vez ultrapassada esta dificuldade inicial, em que o objeto representaria algo, que não fosse nem o desejo e nem o sujeito ou a Alma, podemos concluir que as relações e análises em que tomamos um objeto separado do sujeito, como um conhecimento, são alienantes.

A Alma é o fantasma em uma posição que nos engana ao produzir um discurso que não marca a sua posição exata. Assim não sabemos as causas e nem os motivos desta Alma buscar um gozo através do seu próprio discurso, uma vez que seu discurso não se sustenta na realidade, não dá conta dela.

É justamente esta incapacidade da Alma em ser a Consciência, que a coloca como um sujeito incapaz de assumir sua posição real, que não seja intermediada pela linguagem. Entretanto ao usar uma linguagem ela transfere seu si mesmo, como desejo para uma localização entre ela e os outros. Como todas as Almas agem pelo mesmo princípio, é este pacto mudo, sempre ausente, que ao mesmo tempo em que nos dá a possibilidade da comunicação entre nós, nos transfere a incapacidade de contradizer a nós mesmos.

Em linhas gerais todos nós nos beneficiamos do mesmo princípio: sermos intermediados pela linguagem como se fossemos nós a falar e pensar, e ao mesmo tempo ter que dar conta de uma relação com si mesmo, onde não há linguagem, onde o Signo não necessita de codificação. O Gozo como aproximação de si mesmo, mas intermediada por uma linguagem entre nós, nos aproxima da mesma Consciência, do outro, que é a mesma Consciência em nós, fechando um circuito com o si mesmo, através do outro. É gozo por que se deu através de um outro.



O Gozo é uma aproximação do Jiva,da Alma, da Consciência. Esta Consciência que é Perfeita, Benevolente, e aí introduzo para vocês um conceito novo, e que talvez você já tenha ouvido por aí, esta Consciência Benevolente, é chamada de Shiva, no Tantra.

Esta aproximação sempre se dá através do outro, pois não há como a Alma se relacionar com a Consciência que está junto a si, pois para isto a linguagem é insuficiente, o signo já faz isto diretamente entre a Alma e a Consciência. A estrutura do Gozo pede que se faça isto através de um outro, real ou imaginado. Mas é sempre um outro que outorga o encontro com o si mesmo.

           

Esta Eudade, Shiva, é o Grande Outro, designado por Lacan como o Outro. O Outro que é o mesmo nosso de todos nós.

A Consciência é uma Eudade, é o Eu, o mesmo Eu em todos nós, assim temos o outro e o Outro. O outro é a referência a outra pessoa, outra Alma, e o Outro, grafado com O maiúsculo é o Eu neste outro, o mesmo Eu em nós.

Shiva, a Consciência, é a Eudade, um eu que é perfeito para ele mesmo, uma eudade, a Eudade é a única entidade que não é fantasmática em todo o Universo.

A Eudade, Shiva para os Hindus, a Consciência, são o mesmo princípio. Princípio que não precisa se relacionar consigo mesmo, sendo a única coisa igual em todo o Universo, pois sendo a mesma coisa não precisa de si mesmo, e por isto é Eudade, Consciência ou Shiva.

Nós, como Fantasmas, precisamos ser para nós subjetivamente (para a Eudade) e precisamos ser para os outros objetivamente, vejam que nós como Jiva, como Alma, não podemos ser subjetivamente para o outro, se tentamos ser subjetivamente, seremos pelos meios objetivos, pela linguagem!

Nós fantasmas, nós Jivas, estamos separados pela linguagem!



Toda comunicação se dá por um código, código este aprendido pela cultura, e na relação com o outro utilizamos este código como linguagem. Na relação com si mesmo esta Alma precisa usar deste mesmo código, intermediado pela linguagem, como pensamento. Não podemos ser subjetivamente para o outro sem um código estabelecido, sem uma linguagem. Então toda relação é objetiva, mesmo que não pareça ser. Se este código foi aprendido e desenvolvido para dar conta de estarmos separados por uma linguagem, e esta separação é justamente a possibilidade de conhecer um aspecto de si mesmo, quero dizer, de conhecer a Eudade no outro, temos um cenário, que é biunívoco, é pelo outro que entramos em contato com a Eudade em nós. E naturalmente vem a questão se podemos ter este contato com a nossa Eudade pelo outro, porque não podemos ter diretamente em nós? A resposta é enigmática, nós estamos barrados, pois o código estabelecido foi para a relação entre nós, ela é cultural. A linguagem separa a mesma Eudade. Então na tentativa de uma relação subjetiva com a Eudade em si mesmo, a linguagem, o código estabelecido entre as Almas não serve.


A Eudade, Shiva, já é subjetivamente para ele, pois ele foi a Primeira Eudade, não havia outra, não havia para quem ser, isto é ontológico, não é milagre, é matemática. Só há uma Eudade, uma Consciência.

É debaixo deste fenômeno que nós estamos. A Consciência primeiramente foi subjetivamente para ela, se representou pela benevolência, logo, ela.... não é benevolente, ela foi, pois era para ser para ela mesmo!

Não havia separação, pois não havia outro.

A Eudade não precisa ser para ninguém mais, ela é a mesma coisa, é idêntica em todas as Almas, Não havendo nada além da mesma Eudade não existe nenhum conflito ou atração entre ela mesma, aí a benevolência é este estado mútuo, não existindo outro no Universo. Se imaginarmos uma Eudade que se divide em duas e depois em três etc, perdemos o processo, pois a primeira Eudade não necessita de dividir. Então ela não de dividiu, não vive no tempo/espaço.

O Tantra rejeita a metafísica e a criação, e adota o Emanacionismo a partir do Um, desta forma as práticas espirituais tem que levar em conta esta realidade e não outras vias de interpretação.

Shiva não é um Ser nem uma Entidade, é a Eudade que origina o Universo, é este mesmo Um que a todo momento se manifesta tanto para si mesmo como para os demais, subjetivamente e objetivamente, criando uma cadeia de eventos. Um que continua a ser bom para ele mesmo, e daí os desdobramentos lógicos e psicológicos desta Biunivocidade e suas várias possibilidades.

Este EU original, um princípio de Consciência, continua sendo UM, como subjetividade entre si mesmo, e como objetividade, entre as Almas. Logo não há uma produção de EUs iguais a partir do Primeiro Eu, o Eu, a Consciência é a mesma, sempre foi e sempre será a mesma. Assim o Eu de cada um de nós é o mesmo Eu original, como Principio de Consciência, portanto este emanacionismo é aparente, este EU não mudou e jamais mudará, pois é o mesmo, sempre, não havendo a necessidade de ser outro. Logo, este Eu está presente e ausente em todas as estruturas do universo, na matéria, como Unidade alheia ao espaço/tempo, portanto imutável.

Um átomo, uma partícula sub atômica, ou em uma galáxia, há o EU, cujo fundamento é a imutabilidade, mas em cujo campo as transformações são possíveis. Desta forma não existe uma evolução do EU, nem mesmo sua criação, ele não é um evento, é um Ser que é eterno, imutável. Nem mesmo de Deus podemos chamar a Consciência, pois um Deus cria, interage, e neste caso é sua presença como imutável, que produz a matéria e conseqüentemente a psique. Assim esta consciência, este EU já existia muito antes da matéria e da psique, existia e continuará existindo da mesma forma – imutável.

O que é isto? Com o que estamos lidando? De que é feito? São perguntas feitas pela razão que tenta entender este fenômeno chamado de Consciência. A matéria e seus fenômenos absurdos, e a psique como a construção de um si mesmo, que se nomeia, como ser e produz um conhecimento, tanto sobre a matéria como a física e sobre si mesmo como a psicanálise, são eventos secundários da Consciência. Hoje a física quântica mostra que a matéria não é um fenômeno isolado de nós, basta observarmos a matéria e ela reage a nossa observação produzindo outros eventos.

           

Eu posso ser bom para mim e ser mau para o outro,também posso ser mau para mim e bom para o outro, veja que ser "mau" não é ser mau, mas sim, não ter o mesmo julgamento. O outro é a introdução do terceiro e sobre isto que vou lhes falar.

Basicamente temos duas posições: Sou bom para mim e não uso da mesma medida com o outro, então sou “mau” para o outro, esta é a via perversa. A outra via é quando sou injusto, “mau” comigo, e bom para o outro, e assim sou neurótico. A diferença é lançada no outro ou ela é lançada em mim. Jamais na Eudade.

A realidade como ela se apresenta para nós nos deixa uma via dupla de interpretação tanto de si mesmo como do outro. A Alma faz o papel de ser alguém, produto de uma cultura e de um grupo social como a família. Mas na relação com o outro, se reproduz uma verdade Universal, biunívoca, em que aprendo ou ensino, ou em que sou neurótico, um aprendiz ou um mestre, um perverso. A Consciência, o EU, Shiva, é apenas uma presença, tudo que percebo é percebido pela Alma, pela ínfima parte que capturo da realidade, quando emano um saber ao outro e quando recebo o saber do outro. Tanto o saber da Alma como a matéria são lados da mesma coisa. Isto é a Biunivcidade, o Tan e o Tra. A expansão perversa e o retraimento neurótico.

Na posição Neurótica procuramos na Eudade do outro, um saber que complete a nossa incapacidade de ter acesso subjetivo a si mesmo, e na posição Perversa nós nos colocamos a serviço do Gozo da Eudade. 

Dois neuróticos, se colocariam os dois na posição de buscar na Eudade do outro a posição negada em si mesmos, e dois perversos os dois se colocariam a serviço do gozo da Eudade do outro.

As relações entre as Almas, são as relações da alteridade do saber, a intermediação produzida pela presença da mesma Consciência nas duas posições. Como fica barrado o nosso acesso a “nossa” Consciência, ao nosso EU, pois este acesso se daria por um código de linguagem, por um código da cultura, pactuado entre as Almas; mesmo que este acesso seja feito sempre de forma subjetiva, esta forma subjetiva não sacia a Alma, pois não produz um saber que possa ser levado ao outro. A solução é a co-participação, um saber que se completa no outro como a posição perversa e o saber que se completa em nós como a posição neurótica.

Este é o dilema Universal, e o amor é a alteridade das posições do par.

Portanto agora nós podemos voltar ao Gozo, que não é ser a Eudade, mas ser o mestre da diferença (e quem é o mestre da diferença? O Jiva, o fantasma). No Gozo parece que ganhamos algo, mas na verdade o que ganhamos foi o poder de ser para um outro, o Gozo goza na posição do outro, ele é a prova irrefutável da existência da Eudade.

Esta biunivocidade explica o comportamento cruzado na busca da Eudade, através do outro. Logo, existem dois meios de gozo. Pela Eudade no outro, e pela Eudade em mim mesmo. O saber ou o conhecimento é buscado no outro ou o saber é levado ao outro.

O gozo atende a posição criada por mim de biunívoca, pois se faz pelas duas vias, a da Consciência ou a Eudade no outro e pela Consciência ou Eudade em mim mesmo, como a  via Perversa e Neurótica. Na cultura oriental Shiva ensina a Shakti e Shiva aprende com a Shakti, confirmando a minha contextualização.

O conhecimento é a conexão subjetiva que fiz com minha Eudade, significada pela linguagem, então já objetiva, mas que não se mantém, pois quem age e faz é o Jiva, um produto, um resultado do Um e não o Um.

Ou preciso mostrar para um outro que fiz esta conexão comigo mesmo, ou preciso buscar no outro esta conexão.

Ora, quando temos uma experiência de si mesmo (de termos sido a Eudade) nós a perdemos no tempo, a ponto de ter que mostrá-la para o outro ou buscá-la no outro, temos os dois momentos que são lados do mesmo Jiva, a alteridade da biunivocidade.

Encerrando por aqui, pois a cabeça do leitor deve estar fervendo, posso então caracterizar o Gozo como a alteridade das posições.


Como Fantasmas, para sermos subjetivamente para nós, nós precisamos ser objetivamente para os outros. E ser subjetivamente para os outros para ser objetivamente para nós.

Está aí a Etimologia do Gozo - separados pela Linguagem. A moeda de troca é o Signo, vestido com uma letra que significou subjetivamente a Eudade, e um Signo nu, sem significação, que a busca na letra do outro.

Assim posso lhes revelar o significado de Signo como Falo, como o Linga no Tantra, o falo evanescente que produz o Gozo é o Signo representado por Freud como o Falo da castração Freudiana e como o Signo da castração em Lacan. O Tantra nos diz existirem três Lingas (falos), um físico, um emocional e um outro cognitivo, um ligado aos genitais, outro ao coração, emocional e um terceiro ligado a cognição. As necessidades da Alma como corpo, como emoção e transcendência.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Separados Pela Linguagem - Parte V - O Tantra

Antes de ler leia a postagem anterior:



Assim eu creio que consegui conduzir você leitor até um ponto interessante, e que é o objeto da psicanálise e do Tantra – o Gozo do Real. E não me contenho em dizer, o Gozo Real, “a coisa toda boa” como dizia um discípulo meu.

Exatamente isto é a Biunivicidade, o Samádhi Hindu, o gozo sem objeto. O malandro Patãnjali já colocava as duas formas de gozo, um com objeto e outro sem o objeto. Mas o problema não é tão simples como nos insinua Patãnjali. Como gozar sem objeto? Alguns estudiosos do yoga, os teimosos em ver alguma coisa lá, dizem que é uma percepção especial, o tal gozo sem objeto.?????????

O Tantra não luta com o conceito, não rivaliza com a filosofia, pois nele o Gozo do sujeito com seu objeto é um gozo embrulhado com o real, mas não há nada de errado nisto, embrulhado ou não, é Gozo.

Não se preocupe caro leitor, ninguém está gozando errado, nem incompletamente, nem parcialmente, como se houvesse um Gozo Real, e um ilusório. Como se houvesse uma gestalt perfeita para ser encontrada por aí, e você não a encontrou!

Com isto entramos no assunto, na Biunivocidade, o gozo não encerra, mas recomeça, ele reinicia a Alma na cadeia significante da letra. Dá ao Jiva a sensação dele existir de fato como Consciência. E de fato, o gozo dele é o de atingir um metadesejo – o Gozo é a experiência em si.

Com objeto ou sem objeto o gozo(sic) é um desfazimento da letra, da nossa separação pela linguagem. Ilusão é buscar um Mais-gozar, um gozo além de si mesmo, como se o gozo da Alma não fosse espiritual.

Então não é gozo que pode ser colocado em categorias, com ou sem objeto, não. É o desejo, este sim, o desejo que faz o sujeito, é ele que pode ser categorizado. O objeto vem do desejo e não do Gozo.

E isto somente muda quando o Jiva, a Alma, coloca o desejo como uma experiência e não como conhecimento, quando a Alma coloca como uma experiência de si mesmo. Experiência esta que não é um ganho, mas uma expansão em direção a Consciência.

Resumindo o Jiva, o fantasma, a Alma,  é um experienciador da Consciência. Sem ele não há experiência alguma.

Nós como Almas estamos desempatado o jogo; e o EU, a Consciência, empata, ela sempre empata o jogo.

Desta forma é que nós podemos ser um Avatar da Consciência. O Jiva é a consciência e depois voltar a ser a Alma, e sobre esta viagem, é sobre isto que o Tantra nos fala. Eu, você, todos, podem, como Jiva, ser a Consciência no Gozo, mas antes do gozo, e depois dele não. Logo não há um objeto, o sujeito, o Jiva, ele é o Objeto da Consciência, este é o caso!

O Jiva quando sofre um gozo está junto da Consciência, naquele instante e depois volta para a linguagem, volta para seu lugar na cadeia significante.

Logo estar de posse de um corpo físico, de uma psique, para a Consciência, é estar experimentando ser daquele jeito específico. O que quero dizer é que o Gozo é uma ausência de significado para uma experiência, a ausência de linguagem!!

Assim posso começar a lhes dizer que não há transcendência alguma que não seja a da linguagem e que o Jiva é um ser da linguagem e em todos os momentos, e com isto, sou obrigado a lhes levar ao Tantra novamente. Que  momentos são estes?

Antes, quero lhes dizer da grandeza de um homem chamado Freud, ele foi o primeiro, a abordar onde o homem desfaz sua linguagem, ele foi o primeiro a conferir aos sonhos um status de uma outra vida da Alma, do Jiva.

O Jiva vive na vigília, no sono e nos sonhos, e vive vidas distintas!

A vigília, Jagrata, o estado de sonho Svapna, e o estado sem sonhos do sono,  Susupti.

Como a filosofia ocidental pôde ignorar os sonhos e o sono?

Na vigília e nos sonhos nós somos o desejo de sujeito e o sujeito de desejo, respectivamente. Nós invertemos a posição, ciceroneados pelo sono que faz a ponte entre um e o outro estado.

Sonhamos para poder dormir, e dormimos para poder sonhar.

Nos sonhos nós somos os senhores da mente, da situação, o desejo pode se transformar pela imaginação em várias formas, continuamos sendo o sujeito do desejo, o desejo se altera e nós continuamos nele. Na vigília temos o desejo do sujeito, o sujeito preso ao desejo, e aí é o sujeito que muda, para atender o desejo, e mudar, pela linguagem!

No sonho nós somos o mesmo sujeito, na vigília criamos a possibilidade do outro, trasnferimos, mudamos o sujeito e não o desejo!

Na vigília, nós temos o Signo, como a letra, ela manda no sujeito; já nos sonhos temos um sujeito em que o Signo escapa da ditadura da letra, não age mais pela letra, mas pela imagem em ação.

No sonho o sujeito do desejo é capaz de surfar pelo signos, rompendo com a linguagem, com a letra. Ele é o senhor, ele é o sujeito do desejo, ele assume o controle sobre o conceito. Cada signo sonhado revela um outro e um outro... que veste o mesmo desejo, veja que isto é fundamental neste estudo que lhes apresento, o desejo é o mesmo, mas sua roupa, é que é outra. Isto é o fetiche.

Nesta altura já podemos dizer que o Jiva vive três experiências distintas, a vigília, o sonho e o sono.

A vigília é um transe com o mesmo desejo, que faz com que o sujeito seja outro e outro, precisa se negar para pensar, transferir...; o sonho é um transe com o mesmo sujeito, em que o desejo é vestido de formas diferentes!

O sonho é uma experiência de ser a Consciência! É um gozo em que o sujeito testemunha, o único momento em que escapa da letra. Jiva Mukta, é a Alma liberta.

E aí o leitor pergunta: O que isto tem a ver com o Tantra?

A resposta é o fenômeno, ele alterna os dois estados, a vigília e o sonho, este é o significado do poder serpentino, que pode ir de um plano ao outro, da terra ao vazio e do vazio para a terra. Pode colocar o sujeito como produto ou causa. Pode colocar o sujeito junto (Samádhi) com a Consciência ou levá-lo ao extremo, separado pelo alfabeto.

Concluindo, já é tarde, não é o objeto que muda o gozo e sim o Lócus, o lugar, o lugar em que o Jiva está. Na posição de vigília ele não pode mudar o Signo, ele está preso a ditadura do significante, e tudo que ele pode conhecer é um outro lugar no mesmo sentido, sentido este dado pela linguagem. Como faço agora com você que lê.

Pode ser que você se anime por um ponto de vista novo, mas não se engane, qualquer lugar na cadeia significante é um lugar previsível, possível , não escapa do sentido.

E com isto eu creio ter lhe dado uma base para entrar no mundo no Tantra. Da imaginação produzida por um tipo de experiência muito especial, a capacidade de sair da vigília para estar junto da posição de Consciência e depois voltar ao mundo, renovado.