terça-feira, 19 de abril de 2011

Desejo - Representação ou Idéia?


Parte I

Desejo e Representação


O desejo somente é tratado unilateralmente na crença ou pela metapsicologia. Na sua origem e uso pela Psicanálise ele se relaciona a Representação ou Vorstellung, pois abrange mais que o sujeito, mais que o ser. É comum nos autores que desconhecem a obra de Freud relacionarem o desejo a idéia ou ao sujeito. O desejo nem é só do sujeito e nem é somente do Inconsciente, ele é duplo, ele é o operante do inconsciente no sujeito e deste no inconsciente, assim ele representa no sujeito aquilo que é trazido do inconsciente e que o afeta, em um dado momento.


A idéia já é uma projeção do sujeito, projeção, transferência feita em função de um outro, ou seja, um desenvolvimento do desejo, e da representação do Signo. O signo é o traço unário, comum a todos presente no Inconsciente e por esta razão os hindus criaram Maya como aquela parte do inconsciente que afeta a psique (jiva); e Mahamaya como todo o inconsciente, que afeta a todos os Jivas. O fenômeno se faz representar como operação entre Maya, na ligação entre o Jiva e o Inconsciente, e se dá pela busca da identidade, Kundaliní, como comparador universal.


Portanto o desejo representa o biunívoco operando como representação de si mesmo, produzindo a vontade, as idéias e também produzindo a comparação destas com o eu ideal, com o “senhor”, com seu si mesmo ideal - Ishwara. O ser fantasmático que é a Alma não deseja buscar a si mesmo(sic), mas é desejado, representado enquanto houver mais um outro no Universo. Pois Ishwara é o eu livre de qualquer lugar, tempo, e necessidade, portanto fora do inconsciente, livre de Maya.


Logo o desejo de voltar a ser aquele eu ideal não é o motivo do desejo, tudo que a Alma não deseja é ser este eu ideal, ela deseja ser este eu ideal, para os demais, através deles, e não para si mesmo, e então paradoxalmente quem chegou a conclusão da existência deste eu ideal, Ishwara, sabe que o desejo e o gozo já são o ser e o ter, não há outro, este outro ser e ter idealizado nada mais é que o uso do outro, para ser, algo impedido no Yogue.


O desejo como representação legítima de si mesmo, portanto, é inescapável. E se por um lado temos o Desejo, ele requer um Gozo, gozo este que reivindica para si a manifestação, que é comum, que é de todos. É do Inconsciente. Por mais  nobre, ou inédito que seja esta representação, ela será recuperada pelo mesmo processo que a criou, ou seja, será tomada novamente pelo Inconsciente, deixando o desejo sem o sentido que o fez se representar.

Um pensamento estruturante, ele segue adiante, representa e perde, pois o desejo quer sua perda. A perda como Gozo representa a possibilidade de continuidade, de um pensamento estruturado e aberto para novas representações que lhe serão dadas pelo Inconsciente. A lógica da Biunivocidade é atingir esta continuidade, entre a representação e a perda, para uma nova significação, o que coloca o Sujeito ao lado, junto da Consciência, pelo tipo de relacionamento que ele tem com o Inconsciente.

O pensamento desestruturado mantém o laço com o desejo, com a representação, atando a idéia ao sujeito como se ele fosse o autor dela, e não uma representação dela, da idéia. A idéia já escapa da estruturação do pensamento, e gera novos sentidos a partir dela, sentidos estes em que o desejo seja dominado, e determinado pelo sujeito. Desconsiderando assim o Inconsciente como fonte. Negado o Inconsciente fica negado o que é comum a todos, em que o sujeito se apresenta como autor legítimo, daquilo que é de todos. Muitas vezes este tipo de conduta é conveniente em uma sociedade como a nossa, pois se podem unir idéias diferentes e produzir um tipo de saber robusto e com sentido, mas que não tem continuidade, a não ser como discurso de ciência, em que muitos falam sobre a mesma coisa.

Na biunivocidade do Tantra, entre a representação do desejo e o seu usufruto, a ligação é de dentro a dentro, por dentro de todos os sujeitos, feito pelo Inconsciente. Não há a produção de um saber de muitos, o comum é interno, espiritual, e satisfaz o sujeito sendo ele mesmo a instituição, o que é o humano.  Logo o desejo como representação e não como idéia, insere o sujeito como ser espiritual, as idéias o colocam como ser das instituições, da produção, onde o Gozo é o pagamento como reconhecimento por estas produções.

As idéias atendem ao social e a representação atende ao pessoal, e estas são as duas faces do Desejo: O Ser nele mesmo, ligado a tudo pelo Inconsciente e como o Ser na sociedade, negando o Inconsciente, mas sendo porta voz da idéia.

Pode a primeira vista parecer que o desejo como representação seja um discurso barrado, e não livre, e que a idéia seja o discurso livre; entretanto é o posto que se dá, pois a representação é que é um discurso de liberdade, da possível liberdade, e o das idéias é o discurso perdido, onde o sujeito está barrado pela idéia, pelo desejo que ele se apropria como sendo dele, totalmente dele.

A representação atende a inesgotabilidade que a idéia não possui pois ela precisa do outro e da produção, sendo portanto limitada. É este aspecto dentro-a-dentro, da representação que coloca o sujeito no seu lugar, onde ele pode pensar estruturadamente, e de forma contínua. É no aspecto fora-a-dentro que a idéia pretende ser comunicação, advinda do sujeito, como origem da projeção, a negação do Inconsciente.

Assim a cultura pode ser uma comunidade das idéias como representação dos sujeitos, ou pode ser a representação dos sujeitos, em que as idéias sejam apenas os laços de poder, admitidos como idéias para justamente negar os sujeitos. O mal estar vem deste saber, saber que aquilo que nos chega como cultura é um convite na participação social, pela negação de nossa relação com o Inconsciente.

É esta reconciliação impossível, o que nos faz sonhar, e reparar as faltas cometidas, reparar a apropriação indevida, que fizemos do bem comum – Inconsciente.

O sonho é o gozo reparador do lugar da identidade, ele nos confronta com as idéias, para reparar a negação que fizemos, conforta e expia a culpa, e voltarmos ao ponto em que temos escolha. Representamos ou somos a origem?

A identidade é o fenômeno reparador, atualizador de si mesmo. E ficam algumas  perguntas:

- O que é que pode ser chamado de seu?
- Como lidar com o meu e com o seu?

A inspiração como continuidade, se dá no plano da representação, e apresentada como tal, é aceita como idéia, pelos outros, pois liga o sujeito a algo mais, que todos tem.

Parte II

Percepção e Identidade

O desejo como representação não explica como surge, ou como um determinado sujeito se faz representar: será que ele é possuído pelo desejo? Ou será que ele possui o desejo? O desafio está entre Ich e Es, entre o Eu e Ele (Isso), ou ainda Ego ou Id como queriam alguns. Freud usa investimento, investimento libidinal, como Carga, Catexia etc Assim os interpretadores de Freud o vêem como um produtor de conteúdos operacionais. Mas na verdade este mecanicismo não existe.

Para atalhar o percurso, pois esta discussão pode se prolongar por séculos, entre uma retórica e a teoria de um conhecimento operacional:

 O desejo como representação, ocorre entre o Eu e o Isso, a coisa que este sujeito percebe, como não sendo ele, e logo, sendo ele. O “Eu sou Isso”, e logo o “Isso sou Eu”. A pulsão é a carga que Ich (Eu) e o Es(ele) faz, para investir em algo, tomado como sem propriedade, livre, solto, do Inconsciente. O desejo não é uma atração do Ich (Eu) por um Es(ele)[1], e sim o momento seguinte que faz com que este Es (Ele) se represente neste Ich(Eu) como um Isso.

A questão é porque o Ich toma algo, como coisa de um outro, e o torna seu ao denominar de um Isso?Resposta: Isso é algo sem dono.

Portanto é de todos, pois aquilo que é do outro, precisa ser negado para ser seu, pelo Isso, pelo que chamamos de conhecimento. Teoria do conhecimento.

Não há como ser algo, sem que se negue este outro, sem que se faça o Ele ser um Isso, reduzindo-o a um algo, como coisa, para depois ser possuído, e assim é feito o investimento libidinal, vindo do Inconsciente. Quando o Isso já é seu, os restos desta operação fantasmática precisam ser triturados como lixo, negado e denegados, pela identidade depois, como Sonhos.

A identidade agora é outra, teve que fazer esta operação, e tem que fazer senão não haveria identidade, seriamos apenas citadores, e depois críticos, para no rolo do conflito, reformados pela peleja, teríamos que nos reconhecer publicamente como seguidores daquele Isso. É isto que os Gregos tentaram fazer, tornar a psique, pública, aberta, exposta. Logo, pela manipulação destes discursos, pessoas como Sócrates tiveram que cometer o suicídio ao verem suas colocações postuladas como um denuncismo, ou seja, muitos ali não eram públicos de fato.

O inconsciente é o resultado do Ich, do Eu, e do Es, Ele, pois a Psique tem que fazer isto, negar e denegar, para ser. Os gregos estavam corretos, tudo que é dito, é público, mas a linguagem pode fazer exatamente isto – conhecer. Entretanto o conhecedor é alterado pelo conhecido.

A partir desta incorporação o Isso desaparece como Ich (Eu), ele é Moi (meu) e surgem novas necessidades no sujeito, advindas de uma nova representação, como desejo, intencionadas como idéias, para justificar a sua posse.


Merleau – Ponty  diz que “O abandono da imanência da subjetividade ou quando o ser humano se depara com algo que se apresenta diante de sua consciência, primeiro nota e percebe esse objeto em total harmonia com a sua forma, a partir de sua consciência perceptiva. Após perceber o objeto, este entra em sua consciência e passa a ser um fenômeno.”
Logo aquilo que ocorre entre o sujeito e o objeto, é um fenômeno, pois a subjetividade, é imanente, ou seja, ela é um zona neutra, uma terra de ninguém, um vazio, a ser preenchido a partir da identificação do sujeito com o objeto, que o sujeito reivindica para si, vejam bem, todo ser da mesma espécie tem em si a imanência da subjetividade. No momentum que o sujeito reivindica para si, e ele o faz porque este objeto o representa de alguma forma, neste momento, e naquele instante o sujeito anterior precisa ser abandonado, e isto é o subjetivo, pois neste momento entre o abandono de si mesmo, e a identificação com uma outra imagem, é o fenômeno que produzirá dois eventos:

TAN - A Imagem aceita toma posse do sujeito.
TRA - A Imagem negada que de alguma forma entra em contradição com a nova imagem vista é recalcada, negada em si mesmo, no próprio sujeito. Mas não pode ser um Isso ejetado deste sujeito, esta parte rejeitada precisa ser colocada a disposição de todos, como projeção desta negação, nos outros, como sonho, como discurso, linguagem.

Logo o sonho e a linguagem não significa o novo, aquilo que foi introduzido no sujeito pela percepção, mas aquilo que foi deslocado pela nova imagem, e justamente esta nova imagem introduzida no sujeito é Yantra, que produzirá uma justificativa, uma elaboração para remover a diferença, naquilo que ela deslocou, quero dizer que esta símbolo novo, Yantra produzirá este deslocamento, pela significação renovada, e mantida como um novo discurso, a partir de agora, como Mantra, linguagem.

O sonho atua como uma forma de elaborar um discurso que possa dar conta, do que foi deslocado, este novo discurso de um novo sujeito, é o Mantra, a palavra.

Então sempre temos uma expansão do sujeito e logo temos sua retração, TanTra.

A parte negada precisará ser colocada em um lugar onde ela possa estar lá e ao mesmo tempo não estar, até que seja trabalhada, resignificada em outra coisa – pelo sonho, pela linguagem. Logo o sonho e a linguagem, não são produzidas diretamente pelas novas imagens e sim pelas que foram recalcadas, deslocadas, por elas, pelas novas imagens.

Com isto exposto, posso lhes dizer que não há um Eu Transcendental e sim um Eu que é capaz de transcender a tudo, e o fenômeno, como Kundaliní, é a identidade deste eu diante do objeto, que é ele mesmo. E com estas considerações já posso lhes afirmar que o Eu busca ser- ele mesmo, mas ele não deseja isto, ele é assim, ele é transcendental, logo não há intenção ou desejo de ser outro, há sim uma pulsão de continuar representando o  ser transcendental. O desejo representa isto, a característica do Eu, Ich, Ishwara, etc, ser ele mesmo. Em nenhum momento o Eu deseja ser outro, ele não precisa, pois ele pode ver, imaginar, ser atingido, e ser este e qualquer coisa, pois o fenômeno lhe permite.

Logo, o Inconsciente existe como suporte a este Eu, como uma zona para a negação. Que está livre, e sempre se liberta quando se desfaz dos restos pelos sonhos e pela linguagem, ou pela meditação, mas que volta a desejar, e se representar novamente.

A identidade diante de uma imagem, ao ser atraída para ter de se refazer, não é um mal, ou um problema, ela é assim, ela não pode ser apenas o que ela foi!

O desejo representa o fenômeno da identidade, mas não para o próprio indivíduo, nele é subjetivo, logo o Eu não deseja ser outro, não, ele não tem desejo, ele apenas representa aquilo que ele é. Nenhum Eu toma todo o outro Eu para si. E aí a filosofia oriental traz conceitos que são novos no ocidente:

            Tan e Tra – o fenômeno da percepção, a capacidade do Eu ser; e o fato de assim estar junto, colocar-se ao lado de(Samadhi), daquilo que é definitivo – a Consciência.

Meditar é um meio que me é dado, por um outro, de ser ausente de mim mesmo, de assistir de dentro a ruptura do ser, somente no final da qual eu me fecho a mim e volto com uma nova percepção. E o Gozo são para os outros imaginados, que me vêem.

Enquanto houver outro me dando este meio, eu posso ser eu mesmo.

Finalizando - o desejo como uma idéia, se apresenta como um discurso para muitos, e o desejo como representação, é a forma da identidade ser, ser ela mesma, pela percepção, apartir de Kundaliní, do fenômeno. A idéia como desejo não diz respeito ao Ser, ao Eu, e sim a possibilidade de produção de um produto, como ciência ou especulação, para os demais, e não para um outro Eu especifico, logo não há um vínculo do desejo como idéia, visto ser ela uma representação para outros, produto da linguagem e da elaboração onírica, produto que tenta ser comum aos demais e ao mesmo temo diferente. Há aí uma contradição, pois o próprio sujeito representa ele mesmo o processo da identidade, e todo modo de produção, de um conhecimento comum, entra no campo das idéias, uma intervenção artificial no processo espiritual. Eis aí o Mal estar da civilização diagnosticado por Freud.

O desejo como representação é o ponto onde se é para si mesmo, como identidade que representa-se pelo desejo, fenômeno de  possibilidade, das possibilidades sempre abertas, de dentro a dentro e não de dentro para fora, nesta ultimo caso, a idéia, e no primeiro caso, de dentro a dentro, como espírito, da mesma Consciência.

O ponto que uma pessoa pode entender é que o processo da produção do conhecimento, e do acesso a ele, é atributivo, atribuímos valores aos símbolos, para que eles possam ser usados de forma comum, por todos nós. Neste aspecto, objetivo, nós produzimos uma civilização que cria os valores, cria uma ciência, que como fórum, decide se estes valores são comuns ou não.

Neste aspecto não podemos falar de desejo como idéia, pois aí o desejo é a necessidade do sujeito viver no mundo, no campo das idéias, aprender e participar do mercado de trabalho, do network. Mas o que este sujeito precisa entender, e aqui é este o objetivo, é que o desejo em sua origem como fenômeno, independe das idéias, esta parte subjetiva, é dele, é espiritual, é o que o leva a dormir e acordar todos os dias. E o desafio é esta convivência entre o que desejamos, pois representamos aquilo que somos e o que desejamos para ser necessários na sociedade, como força de trabalho.

O desejo como representação começa a cumprir seu papel, quando o sujeito é capaz de imaginar, ter uma vida privada, sem confronto com o seu papel no desejo como idéia, como sujeito da sociedade.

Segundo os Gregos, nos princípios da civilização ocidental, nenhum sujeito da sociedade poderia ter vida privada, tudo era público, e isto atrasou muito a evolução da nossa sociedade, com uma filosofia baseada nestes conceitos. Então nós ocidentais viemos do público para o privado e os orientais vieram do privado para o público. Para saciar esta falta de uma vida privada, as religiões produziram que as ocorrências eram o produto de um destino, sem a possibilidade do indivíduo ser ele mesmo independente das ocorrências na sua vida. Assim as religiões vieram dar um suporte que faltava, as justificações para um mal estar produzido pela sociedade.

Desta maneira a imanência subjetiva do ser é a identidade, ela foi levada aos homens pelas religiões como um campo espiritual, que explicava o mundo, as necessidades, e as dificuldades, como produtos do desejo. Mas o desejo que produziria tal mal estar não vinha da representação que o sujeito faz de si mesmo pelo processo de perceber o mundo e sim da sua transformação posterior em idéia, colocada no mundo, para que o sujeito se insira nele, e se represente pela idéia, e não pelo que ele é.

A parte espiritual é o encontro com si mesmo, algo que fazemos como força de renovação, de desejo como representação, de si para si mesmo, como fenômeno, como identidade. Mas no momento em que falamos, produzimos um discurso para outro, já como idéia, como Mantra, como palavra. Começamos a entrar no mundo filosofia de ser, do Tantra, quando entendemos esta interdição que a imanência subjetiva produz, como identidade, como fenômeno.

Este diálogo interno e externo que produz a continuidade do ser, pois nenhum ser suportaria viver mais que alguns dias sem ele, ele é feito pela identidade, como uma meditação pela percepção. A nossa manutenção como identidade autônoma, é o que nos permite viver no mundo, se não for assim, há a degeneração psíquica com todas as formas de projeção conhecidas, e isto é feito pela linguagem, como Mantra, mas o fenômeno nos lança para dentro, projetados pelo Yantra, pela imagem identificada pela similitude com o outro no plano espiritual a partir do corpo. Protótipo para a Consciência.

As religiões do mundo como instituições no mundo, não atendem, e jamais deram suporte algum, pois elas não podem lhe dar a identidade, somente você pode fazer a partir destes esclarecimentos vindos do Tantra, a única filosofia que coloca o mundo espiritual como identificação daquilo que somos, no mundo, como corpo e como Alma, e como seres que são parte da mesma Consciência.


[1] Neste viés Ich, o Eu, só pode ser atraído por algo que fosse  identificado como contendo uma representação sua, assim ativaria o processo fenomênico, pois o que é igual não atrai outro igual pelos motivos da apropriação, e sim pela similitude de forma, corpo, espécie etc logo o fenômeno é a identidade entre os seres, que produz um espelhamento, e ele uma imanência subjetiva, a identidade.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Separados pela Linguagem - Parte VI - Shiva, a Eudade

Antes de Ler, leia a Parte V




Se é o desejo que(m) faz o sujeito, é ele que pode ser categorizado. O objeto que vem do desejo é um sujeito, um Fantasma gozante, o Jiva. E, como veremos, é a sua posição o que marcará como, e por que este sujeito age.

A tese de que o sujeito seja uma Alma e que contenha nela uma essência, um núcleo espiritual, e em contraponto o desejo seja uma vontade, adquirida ou herdada, que lançaria este sujeito ou Alma em uma confusão existencial, bem esta tese cai completamente quando este sujeito , é ele mesmo o produto do desejo. Logo não existe objeto filosófico algum, que não seja o próprio sujeito como desejo, produzindo um objeto como se não fosse ele mesmo, o criador. Uma vez ultrapassada esta dificuldade inicial, em que o objeto representaria algo, que não fosse nem o desejo e nem o sujeito ou a Alma, podemos concluir que as relações e análises em que tomamos um objeto separado do sujeito, como um conhecimento, são alienantes.

A Alma é o fantasma em uma posição que nos engana ao produzir um discurso que não marca a sua posição exata. Assim não sabemos as causas e nem os motivos desta Alma buscar um gozo através do seu próprio discurso, uma vez que seu discurso não se sustenta na realidade, não dá conta dela.

É justamente esta incapacidade da Alma em ser a Consciência, que a coloca como um sujeito incapaz de assumir sua posição real, que não seja intermediada pela linguagem. Entretanto ao usar uma linguagem ela transfere seu si mesmo, como desejo para uma localização entre ela e os outros. Como todas as Almas agem pelo mesmo princípio, é este pacto mudo, sempre ausente, que ao mesmo tempo em que nos dá a possibilidade da comunicação entre nós, nos transfere a incapacidade de contradizer a nós mesmos.

Em linhas gerais todos nós nos beneficiamos do mesmo princípio: sermos intermediados pela linguagem como se fossemos nós a falar e pensar, e ao mesmo tempo ter que dar conta de uma relação com si mesmo, onde não há linguagem, onde o Signo não necessita de codificação. O Gozo como aproximação de si mesmo, mas intermediada por uma linguagem entre nós, nos aproxima da mesma Consciência, do outro, que é a mesma Consciência em nós, fechando um circuito com o si mesmo, através do outro. É gozo por que se deu através de um outro.



O Gozo é uma aproximação do Jiva,da Alma, da Consciência. Esta Consciência que é Perfeita, Benevolente, e aí introduzo para vocês um conceito novo, e que talvez você já tenha ouvido por aí, esta Consciência Benevolente, é chamada de Shiva, no Tantra.

Esta aproximação sempre se dá através do outro, pois não há como a Alma se relacionar com a Consciência que está junto a si, pois para isto a linguagem é insuficiente, o signo já faz isto diretamente entre a Alma e a Consciência. A estrutura do Gozo pede que se faça isto através de um outro, real ou imaginado. Mas é sempre um outro que outorga o encontro com o si mesmo.

           

Esta Eudade, Shiva, é o Grande Outro, designado por Lacan como o Outro. O Outro que é o mesmo nosso de todos nós.

A Consciência é uma Eudade, é o Eu, o mesmo Eu em todos nós, assim temos o outro e o Outro. O outro é a referência a outra pessoa, outra Alma, e o Outro, grafado com O maiúsculo é o Eu neste outro, o mesmo Eu em nós.

Shiva, a Consciência, é a Eudade, um eu que é perfeito para ele mesmo, uma eudade, a Eudade é a única entidade que não é fantasmática em todo o Universo.

A Eudade, Shiva para os Hindus, a Consciência, são o mesmo princípio. Princípio que não precisa se relacionar consigo mesmo, sendo a única coisa igual em todo o Universo, pois sendo a mesma coisa não precisa de si mesmo, e por isto é Eudade, Consciência ou Shiva.

Nós, como Fantasmas, precisamos ser para nós subjetivamente (para a Eudade) e precisamos ser para os outros objetivamente, vejam que nós como Jiva, como Alma, não podemos ser subjetivamente para o outro, se tentamos ser subjetivamente, seremos pelos meios objetivos, pela linguagem!

Nós fantasmas, nós Jivas, estamos separados pela linguagem!



Toda comunicação se dá por um código, código este aprendido pela cultura, e na relação com o outro utilizamos este código como linguagem. Na relação com si mesmo esta Alma precisa usar deste mesmo código, intermediado pela linguagem, como pensamento. Não podemos ser subjetivamente para o outro sem um código estabelecido, sem uma linguagem. Então toda relação é objetiva, mesmo que não pareça ser. Se este código foi aprendido e desenvolvido para dar conta de estarmos separados por uma linguagem, e esta separação é justamente a possibilidade de conhecer um aspecto de si mesmo, quero dizer, de conhecer a Eudade no outro, temos um cenário, que é biunívoco, é pelo outro que entramos em contato com a Eudade em nós. E naturalmente vem a questão se podemos ter este contato com a nossa Eudade pelo outro, porque não podemos ter diretamente em nós? A resposta é enigmática, nós estamos barrados, pois o código estabelecido foi para a relação entre nós, ela é cultural. A linguagem separa a mesma Eudade. Então na tentativa de uma relação subjetiva com a Eudade em si mesmo, a linguagem, o código estabelecido entre as Almas não serve.


A Eudade, Shiva, já é subjetivamente para ele, pois ele foi a Primeira Eudade, não havia outra, não havia para quem ser, isto é ontológico, não é milagre, é matemática. Só há uma Eudade, uma Consciência.

É debaixo deste fenômeno que nós estamos. A Consciência primeiramente foi subjetivamente para ela, se representou pela benevolência, logo, ela.... não é benevolente, ela foi, pois era para ser para ela mesmo!

Não havia separação, pois não havia outro.

A Eudade não precisa ser para ninguém mais, ela é a mesma coisa, é idêntica em todas as Almas, Não havendo nada além da mesma Eudade não existe nenhum conflito ou atração entre ela mesma, aí a benevolência é este estado mútuo, não existindo outro no Universo. Se imaginarmos uma Eudade que se divide em duas e depois em três etc, perdemos o processo, pois a primeira Eudade não necessita de dividir. Então ela não de dividiu, não vive no tempo/espaço.

O Tantra rejeita a metafísica e a criação, e adota o Emanacionismo a partir do Um, desta forma as práticas espirituais tem que levar em conta esta realidade e não outras vias de interpretação.

Shiva não é um Ser nem uma Entidade, é a Eudade que origina o Universo, é este mesmo Um que a todo momento se manifesta tanto para si mesmo como para os demais, subjetivamente e objetivamente, criando uma cadeia de eventos. Um que continua a ser bom para ele mesmo, e daí os desdobramentos lógicos e psicológicos desta Biunivocidade e suas várias possibilidades.

Este EU original, um princípio de Consciência, continua sendo UM, como subjetividade entre si mesmo, e como objetividade, entre as Almas. Logo não há uma produção de EUs iguais a partir do Primeiro Eu, o Eu, a Consciência é a mesma, sempre foi e sempre será a mesma. Assim o Eu de cada um de nós é o mesmo Eu original, como Principio de Consciência, portanto este emanacionismo é aparente, este EU não mudou e jamais mudará, pois é o mesmo, sempre, não havendo a necessidade de ser outro. Logo, este Eu está presente e ausente em todas as estruturas do universo, na matéria, como Unidade alheia ao espaço/tempo, portanto imutável.

Um átomo, uma partícula sub atômica, ou em uma galáxia, há o EU, cujo fundamento é a imutabilidade, mas em cujo campo as transformações são possíveis. Desta forma não existe uma evolução do EU, nem mesmo sua criação, ele não é um evento, é um Ser que é eterno, imutável. Nem mesmo de Deus podemos chamar a Consciência, pois um Deus cria, interage, e neste caso é sua presença como imutável, que produz a matéria e conseqüentemente a psique. Assim esta consciência, este EU já existia muito antes da matéria e da psique, existia e continuará existindo da mesma forma – imutável.

O que é isto? Com o que estamos lidando? De que é feito? São perguntas feitas pela razão que tenta entender este fenômeno chamado de Consciência. A matéria e seus fenômenos absurdos, e a psique como a construção de um si mesmo, que se nomeia, como ser e produz um conhecimento, tanto sobre a matéria como a física e sobre si mesmo como a psicanálise, são eventos secundários da Consciência. Hoje a física quântica mostra que a matéria não é um fenômeno isolado de nós, basta observarmos a matéria e ela reage a nossa observação produzindo outros eventos.

           

Eu posso ser bom para mim e ser mau para o outro,também posso ser mau para mim e bom para o outro, veja que ser "mau" não é ser mau, mas sim, não ter o mesmo julgamento. O outro é a introdução do terceiro e sobre isto que vou lhes falar.

Basicamente temos duas posições: Sou bom para mim e não uso da mesma medida com o outro, então sou “mau” para o outro, esta é a via perversa. A outra via é quando sou injusto, “mau” comigo, e bom para o outro, e assim sou neurótico. A diferença é lançada no outro ou ela é lançada em mim. Jamais na Eudade.

A realidade como ela se apresenta para nós nos deixa uma via dupla de interpretação tanto de si mesmo como do outro. A Alma faz o papel de ser alguém, produto de uma cultura e de um grupo social como a família. Mas na relação com o outro, se reproduz uma verdade Universal, biunívoca, em que aprendo ou ensino, ou em que sou neurótico, um aprendiz ou um mestre, um perverso. A Consciência, o EU, Shiva, é apenas uma presença, tudo que percebo é percebido pela Alma, pela ínfima parte que capturo da realidade, quando emano um saber ao outro e quando recebo o saber do outro. Tanto o saber da Alma como a matéria são lados da mesma coisa. Isto é a Biunivcidade, o Tan e o Tra. A expansão perversa e o retraimento neurótico.

Na posição Neurótica procuramos na Eudade do outro, um saber que complete a nossa incapacidade de ter acesso subjetivo a si mesmo, e na posição Perversa nós nos colocamos a serviço do Gozo da Eudade. 

Dois neuróticos, se colocariam os dois na posição de buscar na Eudade do outro a posição negada em si mesmos, e dois perversos os dois se colocariam a serviço do gozo da Eudade do outro.

As relações entre as Almas, são as relações da alteridade do saber, a intermediação produzida pela presença da mesma Consciência nas duas posições. Como fica barrado o nosso acesso a “nossa” Consciência, ao nosso EU, pois este acesso se daria por um código de linguagem, por um código da cultura, pactuado entre as Almas; mesmo que este acesso seja feito sempre de forma subjetiva, esta forma subjetiva não sacia a Alma, pois não produz um saber que possa ser levado ao outro. A solução é a co-participação, um saber que se completa no outro como a posição perversa e o saber que se completa em nós como a posição neurótica.

Este é o dilema Universal, e o amor é a alteridade das posições do par.

Portanto agora nós podemos voltar ao Gozo, que não é ser a Eudade, mas ser o mestre da diferença (e quem é o mestre da diferença? O Jiva, o fantasma). No Gozo parece que ganhamos algo, mas na verdade o que ganhamos foi o poder de ser para um outro, o Gozo goza na posição do outro, ele é a prova irrefutável da existência da Eudade.

Esta biunivocidade explica o comportamento cruzado na busca da Eudade, através do outro. Logo, existem dois meios de gozo. Pela Eudade no outro, e pela Eudade em mim mesmo. O saber ou o conhecimento é buscado no outro ou o saber é levado ao outro.

O gozo atende a posição criada por mim de biunívoca, pois se faz pelas duas vias, a da Consciência ou a Eudade no outro e pela Consciência ou Eudade em mim mesmo, como a  via Perversa e Neurótica. Na cultura oriental Shiva ensina a Shakti e Shiva aprende com a Shakti, confirmando a minha contextualização.

O conhecimento é a conexão subjetiva que fiz com minha Eudade, significada pela linguagem, então já objetiva, mas que não se mantém, pois quem age e faz é o Jiva, um produto, um resultado do Um e não o Um.

Ou preciso mostrar para um outro que fiz esta conexão comigo mesmo, ou preciso buscar no outro esta conexão.

Ora, quando temos uma experiência de si mesmo (de termos sido a Eudade) nós a perdemos no tempo, a ponto de ter que mostrá-la para o outro ou buscá-la no outro, temos os dois momentos que são lados do mesmo Jiva, a alteridade da biunivocidade.

Encerrando por aqui, pois a cabeça do leitor deve estar fervendo, posso então caracterizar o Gozo como a alteridade das posições.


Como Fantasmas, para sermos subjetivamente para nós, nós precisamos ser objetivamente para os outros. E ser subjetivamente para os outros para ser objetivamente para nós.

Está aí a Etimologia do Gozo - separados pela Linguagem. A moeda de troca é o Signo, vestido com uma letra que significou subjetivamente a Eudade, e um Signo nu, sem significação, que a busca na letra do outro.

Assim posso lhes revelar o significado de Signo como Falo, como o Linga no Tantra, o falo evanescente que produz o Gozo é o Signo representado por Freud como o Falo da castração Freudiana e como o Signo da castração em Lacan. O Tantra nos diz existirem três Lingas (falos), um físico, um emocional e um outro cognitivo, um ligado aos genitais, outro ao coração, emocional e um terceiro ligado a cognição. As necessidades da Alma como corpo, como emoção e transcendência.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Separados Pela Linguagem - Parte V - O Tantra

Antes de ler leia a postagem anterior:



Assim eu creio que consegui conduzir você leitor até um ponto interessante, e que é o objeto da psicanálise e do Tantra – o Gozo do Real. E não me contenho em dizer, o Gozo Real, “a coisa toda boa” como dizia um discípulo meu.

Exatamente isto é a Biunivicidade, o Samádhi Hindu, o gozo sem objeto. O malandro Patãnjali já colocava as duas formas de gozo, um com objeto e outro sem o objeto. Mas o problema não é tão simples como nos insinua Patãnjali. Como gozar sem objeto? Alguns estudiosos do yoga, os teimosos em ver alguma coisa lá, dizem que é uma percepção especial, o tal gozo sem objeto.?????????

O Tantra não luta com o conceito, não rivaliza com a filosofia, pois nele o Gozo do sujeito com seu objeto é um gozo embrulhado com o real, mas não há nada de errado nisto, embrulhado ou não, é Gozo.

Não se preocupe caro leitor, ninguém está gozando errado, nem incompletamente, nem parcialmente, como se houvesse um Gozo Real, e um ilusório. Como se houvesse uma gestalt perfeita para ser encontrada por aí, e você não a encontrou!

Com isto entramos no assunto, na Biunivocidade, o gozo não encerra, mas recomeça, ele reinicia a Alma na cadeia significante da letra. Dá ao Jiva a sensação dele existir de fato como Consciência. E de fato, o gozo dele é o de atingir um metadesejo – o Gozo é a experiência em si.

Com objeto ou sem objeto o gozo(sic) é um desfazimento da letra, da nossa separação pela linguagem. Ilusão é buscar um Mais-gozar, um gozo além de si mesmo, como se o gozo da Alma não fosse espiritual.

Então não é gozo que pode ser colocado em categorias, com ou sem objeto, não. É o desejo, este sim, o desejo que faz o sujeito, é ele que pode ser categorizado. O objeto vem do desejo e não do Gozo.

E isto somente muda quando o Jiva, a Alma, coloca o desejo como uma experiência e não como conhecimento, quando a Alma coloca como uma experiência de si mesmo. Experiência esta que não é um ganho, mas uma expansão em direção a Consciência.

Resumindo o Jiva, o fantasma, a Alma,  é um experienciador da Consciência. Sem ele não há experiência alguma.

Nós como Almas estamos desempatado o jogo; e o EU, a Consciência, empata, ela sempre empata o jogo.

Desta forma é que nós podemos ser um Avatar da Consciência. O Jiva é a consciência e depois voltar a ser a Alma, e sobre esta viagem, é sobre isto que o Tantra nos fala. Eu, você, todos, podem, como Jiva, ser a Consciência no Gozo, mas antes do gozo, e depois dele não. Logo não há um objeto, o sujeito, o Jiva, ele é o Objeto da Consciência, este é o caso!

O Jiva quando sofre um gozo está junto da Consciência, naquele instante e depois volta para a linguagem, volta para seu lugar na cadeia significante.

Logo estar de posse de um corpo físico, de uma psique, para a Consciência, é estar experimentando ser daquele jeito específico. O que quero dizer é que o Gozo é uma ausência de significado para uma experiência, a ausência de linguagem!!

Assim posso começar a lhes dizer que não há transcendência alguma que não seja a da linguagem e que o Jiva é um ser da linguagem e em todos os momentos, e com isto, sou obrigado a lhes levar ao Tantra novamente. Que  momentos são estes?

Antes, quero lhes dizer da grandeza de um homem chamado Freud, ele foi o primeiro, a abordar onde o homem desfaz sua linguagem, ele foi o primeiro a conferir aos sonhos um status de uma outra vida da Alma, do Jiva.

O Jiva vive na vigília, no sono e nos sonhos, e vive vidas distintas!

A vigília, Jagrata, o estado de sonho Svapna, e o estado sem sonhos do sono,  Susupti.

Como a filosofia ocidental pôde ignorar os sonhos e o sono?

Na vigília e nos sonhos nós somos o desejo de sujeito e o sujeito de desejo, respectivamente. Nós invertemos a posição, ciceroneados pelo sono que faz a ponte entre um e o outro estado.

Sonhamos para poder dormir, e dormimos para poder sonhar.

Nos sonhos nós somos os senhores da mente, da situação, o desejo pode se transformar pela imaginação em várias formas, continuamos sendo o sujeito do desejo, o desejo se altera e nós continuamos nele. Na vigília temos o desejo do sujeito, o sujeito preso ao desejo, e aí é o sujeito que muda, para atender o desejo, e mudar, pela linguagem!

No sonho nós somos o mesmo sujeito, na vigília criamos a possibilidade do outro, trasnferimos, mudamos o sujeito e não o desejo!

Na vigília, nós temos o Signo, como a letra, ela manda no sujeito; já nos sonhos temos um sujeito em que o Signo escapa da ditadura da letra, não age mais pela letra, mas pela imagem em ação.

No sonho o sujeito do desejo é capaz de surfar pelo signos, rompendo com a linguagem, com a letra. Ele é o senhor, ele é o sujeito do desejo, ele assume o controle sobre o conceito. Cada signo sonhado revela um outro e um outro... que veste o mesmo desejo, veja que isto é fundamental neste estudo que lhes apresento, o desejo é o mesmo, mas sua roupa, é que é outra. Isto é o fetiche.

Nesta altura já podemos dizer que o Jiva vive três experiências distintas, a vigília, o sonho e o sono.

A vigília é um transe com o mesmo desejo, que faz com que o sujeito seja outro e outro, precisa se negar para pensar, transferir...; o sonho é um transe com o mesmo sujeito, em que o desejo é vestido de formas diferentes!

O sonho é uma experiência de ser a Consciência! É um gozo em que o sujeito testemunha, o único momento em que escapa da letra. Jiva Mukta, é a Alma liberta.

E aí o leitor pergunta: O que isto tem a ver com o Tantra?

A resposta é o fenômeno, ele alterna os dois estados, a vigília e o sonho, este é o significado do poder serpentino, que pode ir de um plano ao outro, da terra ao vazio e do vazio para a terra. Pode colocar o sujeito como produto ou causa. Pode colocar o sujeito junto (Samádhi) com a Consciência ou levá-lo ao extremo, separado pelo alfabeto.

Concluindo, já é tarde, não é o objeto que muda o gozo e sim o Lócus, o lugar, o lugar em que o Jiva está. Na posição de vigília ele não pode mudar o Signo, ele está preso a ditadura do significante, e tudo que ele pode conhecer é um outro lugar no mesmo sentido, sentido este dado pela linguagem. Como faço agora com você que lê.

Pode ser que você se anime por um ponto de vista novo, mas não se engane, qualquer lugar na cadeia significante é um lugar previsível, possível , não escapa do sentido.

E com isto eu creio ter lhe dado uma base para entrar no mundo no Tantra. Da imaginação produzida por um tipo de experiência muito especial, a capacidade de sair da vigília para estar junto da posição de Consciência e depois voltar ao mundo, renovado.




sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Separados Pela Linguagem - Parte IV - O que o desejo quer de mim?

Leia antes a postagem da semana passada:


Mestre Bhava: Separados Pela Linguagem - Parte III - O desejo


O que o desejo quer de mim, quer do fantasma? Quero dizer que a vida não é mítica e nem "espiritual" , ela é fantasmática, a nossa Alma é um fantasma da letra. Ela se fez pela letra e desaparecerá por ela. Todas as nossas escolhas são alienações na cadeia fantasmática, tudo ilusão como diziam os sábios indianos.


O fantasma ou a Alma é uma construção no vazio, um falante que não sabe porque fala e age. Este fantasma, chamado pelos indianos de Jiva, uma alma sedenta de sangue, isto é, sedenta de ser alguma coisa que lhe dê sentido. Sangue é vida e blá blá blá.


Ela não é nada sem o Isso, tudo que ela é , é um Isso, ou um aquilo, ou por causa disso. Vive em uma atitude sacrificial de se sacrificar por causa disso, por causa de um Isso, que ele não sabe o que é.


Resta ao fantasma a confiança no criador, pois ele deve saber a causa disso? O que quer de mim este desejo?


Mas podemos enquadrar este fantasma, podemos sim, podemos desejar não ter nascido, não ter nascido para Isso, me compreende? Podemos por um fim a este encadeamento fantasmático, fazendo um voto de não nascido. Não é um negar-se, mas por fim ao Isso como a massa encadeante do nosso desejo, um fio de significantes prontos para nosso uso. Usar a Matrix da mesma forma que ela nos usa, vendo claramente o que o Isso quer de mim. O sacrifício da submissão.


Não sabemos exatamente o que ele quer, sabemos que ele quer minha aniquilação, lenta, branda, longa e extensiva, até que as minhas forças mentais se esvaiam por completo e eu aceite um Isso, como salvação. 


O voto que fazem os Tantricos da Índia antiga era este voto de não ter nascido, quebrando a ditadura da letra, de um Isso - Sannyas. Este voto é a unica saída lógica da alienação, em um desejo de um Isso que me sujeita a algo, alguém, alguma coisa, tempo ou espaço.


O Jiva, o fantasma, ele se ata no encontro , na busca da experiência de buscar sentido e criar uma aparente coerência entre o que o desejo quer de mim e do outro, dando a vida um ritmo, já lhes falei do ritmo, e de sua trampa homogênica.


Então está descoberto, o desejo que o gozo busca é um desejo compartilhado, um Isso, que me destaque de todos, mas me mantenha no rebanho. Para isto servem os elogios, o outro me mantém na coleira universal, o Isso. Por isto fugimos de um Gozo servidor, ele nos mostra que o Isso, é um fantasma, e o que o seu desejo quer de mim, é impedir minha emancipação!


Se o desejo é justamente o que me boicota como Consciência, me embaralha com a realidade, me coloca em um lugar na cadeia de significantes. Não posso calar a cadeia de significantes, nem posso negá-la, sou impotente, quem fala, age, pensa, é o Fantasma, pela letra.


Sabendo que o que o desejo quer é o meu sacrifício, em troca ele me dá a possibilidade de Gozo, de ser alguma coisa, de ser alguém - para os outros.A moeda de troca é o Isso.


Não posso negar o Isso e nem ser cego e aceitá-lo, mas posso pelo voto de não ter nascido, poder ter as duas coisas.


O Isso e Eu, posso ser biunívoco, viver pelo Sannyas! Sempre ao lado, veja bem a expressão, Samadhi, significa estar ao lado, junto à Consciência.

Ao lado, ali, sendo um fantasma, que pelo Isso, é a Consciência e não é ao mesmo tempo!


Vejam bem leitores que eu não disse "O que o Fantasma quer?", e sim, "O que o desejo quer de mim?"


Veja que não há  um Desejo do Sujeito e sim um Sujeito do Desejo, este, é o Fantasma, o Jiva, é sobre ele que falaremos, sob esta perspectiva!


Final da parte IV.



A inversão entre o Desejo do Sujeito e o Sujeito do Desejo, coloca o Desejo como ontologia do Sujeito, como origem e fim.


Esta operação, a inversão da causa, que passa o Sujeito para a posição de produto do Desejo, de  letra, e de cadeia significante, ou se desejar - o Ser. Este é o Ser. Ele não pré existe, ele é produto da intervenção de um outro, entre a Mãe e o futuro sujeito, ali, quando há o corte, a intervenção, feita pela campainha, no meu exemplo foi a campainha que tocou e fez a Mãe retirar o bico do seio da boca, do seu filho, e isto representa um corte, se assujeitar a um poder maior, o tal Nome-do-Pai.

Ali nasce alguém, um sujeito que vem do desejo de não ter sido interrompido, cortado, ou castrado. O desejo é o Medo, Medo da castração. Mascarada pelo Isso, por um sentido no mundo, a letra, as palavras, “A Campainha tocou”, são o Isso do mundo, o nosso link intersubjetivo com todos e conosco. Esta ultima afirmação é que é Capital, o “conosco” é aí que fraudamos o Real e criamos uma existência subjetiva para nós, um SER. O nosso Fantasma, daqui para frente eu o chamarei pelo nome que os pioneiros desta investigação lhe deram – Jiva.

Não há problemas na relação com o Isso, ele representa para nós o que representa para todos, pense bem. Todos vivemos sob esta mesma lei, a ditadura da letra. Esta estrutura vai bem, na infância, e na adolescência começa a dar sinais de que não dará conta de ser, e depois na fase adulta, em que aceitamos o jogo, temos que fazer o jogo, inclusive para nós mesmos, pois é como pensamos, elaboramos, e temos um sentido na vida.

É esta representação para nós é que é falha, pois submete o Isso a uma categoria, que intersujetiva, que é de todos, perceberam? Tornamos assim o Isso no nosso desejo, algo nosso, como se ele não fosse anterior, como se ele não fosse compartilhado com todos, este é o Eclipse da Consciência e o nascimento do Jiva.

Desta forma, é que o Jiva, é a negação da Consciência, do Todo, pela parte, quando tornamos o Isso de todos em algo nosso, o seu desejo. É, aí que ele vive, é aí que ele se faz pela letra, pela linguagem.

É aí que o que representamos para nós com sendo nosso, exclusivo, pessoal, se faz pela letra, pela mesma letra do outro, exatamente isto é o Isso.

Logo não podemos nos representar, não podemos existir subjetivamente, e exclusivamente, enquanto usarmos do mesmo meio, que os demais usam. Não podemos nos representar realmente.

Então, estamos diante da Biunivocidade, a representação para os outros, e para nós mesmo.

Cada palavra, cada pensamento, tem dois lados, o lado do Jiva que representa para o mundo e o em que ele é representado pela Consciência. 

Ele representa o Desejo, e não ele mesmo, isto quando ele sabe que é representado pela Consciência. Este é o ponto.

Desta forma o Jiva é o Sujeito do Desejo e da Consciência. Biunívoco.

Logo, eu (Jiva) falo pelo Isso, para a sua Consciência e você fala pelo Isso para a minha Consciência, mas as duas, são e serão sempre a mesma Consciência! 




Da mesma forma que uma foto termina na sua borda, a letra termina com o tempo, o tempo cala a letra pela borda do eterno. O espaço da borda limita o campo e o tempo limita a linguagem. Isto significa que o Jiva vive de partes, de um ponctum no tempo, e aí lhes início em outro termo, é o que significa este Ponctum, Bija.

Simbolizado por um ponto, o Bija é o momento em que o Jiva existe no tempo. O Jiva é um ponto na grinalda de letras do alfabeto da existencia, ou seja, o Jiva é Bindu das Mátrikas, esqueci desta palavra mátrika. Ela é a letra viva, dita, pensada e falada. Bija é uma conta do rosário, no Japa-Mala da vida. Cada Bija é um Jiva, ligado a outro pelo mesmo fio, pelo mesmo sentido de ser, pelo Isso. Isto é a cadeia fantasmática, de Jivas.

Não sei se estou indo rápido demais, mas é isto. 


No momento em que cada Jiva existe, ele também é Consciência. Logo, o Bindu representa o Jiva e a Consciência.

Podemos já... ir deduzindo que o Jiva evolui, se transforma pela cadeia fantasmática do Japa Mala da vida, sendo uma pessoa diferente, mudando todos os dias, melhor dizendo; mudando todas as noites, pois é o sono e os sonhos que fazem esta adaptação.

Se o Jiva não mudasse ele seria a Consciência, o EU. Ele se transforma na cadeia de significantes pois está sob influência do fenômeno, que o faz ser pela letra, pelo Isso e não pela Consciência. Exatamente este fenômeno que o faz evoluir, que é chamado de  Kundaliní.

O Jiva tem o poder de tomar as letras e delas criar mundos, enfim, falar e pensar. Mas o fenômeno Kundaliní as desfaz e o aproxima de sua natureza Real - dele ser o mesmo em todos os outros. Por isto Kundaliní desfaz o alfabeto, é a engole letras, ela  ilumina o Jiva, o leva para uma viagem através das suas imagens e símbolos. E pelo sonho e sono o devolve, são. Faz a sua cura diária. Se assim não fosse todos nós enlouqueceríamos em uma semana.

A idéia do Tantra é esta, fazer este poder, fazer este fenômeno agir. E agindo ele repara o Jiva e o coloca junto a Consciência novamente.

Então, quando Kundaliní dorme o Jiva acorda e quando o Jiva acorda Kundaliní dorme.

Portanto, o caro leitor, pode agora, entender o que significa a Biunivocidade.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Separados Pela Linguagem - Parte III - O desejo

Antes de ler leia a postagem da semana anterior:


Mestre Bhava: Separados Pela Linguagem - O Fantasma


Hoje assisto na tv por satélite as tropas de segurança invadindo uma comunidade no Rio de Janeiro. Logo surgem sociólogos e antropólogos a desafiar a nossa lógica para explicar os fatos. Estranhamente nenhum deles defende um ponto de vista mais iluminado: O de que somente conhecemos as versões e não os fatos.

O desejo de jornalistas por um furo de reportagem; o desejo dos militares por um ângulo de enquadre de um “bandido” sob a mira do seu fuzil; o desejo de Paz da mesma população que servia e usufruía dos benefícios do tráfico e agora clama por Paz; o desejo dos políticos em ufanismo ao anunciar vitórias e tomadas de terreno no estado, (como se não fosse antes uma obrigação do estado ter tomado as providencias)...enfim desejos diversos de pessoas que não comandam mais suas mentes, elas é que são comandadas pelo desejo imediato de felicidade, sempre as custas de um outro.

E aí o leitor pergunta o que isto tem a ver com o assunto, Separados pela linguagem? E eu respondo – Tudo. Quase sempre não vemos nem a ponta do Iceberg, que são as relações humanas intermediadas pela letra, sempre acreditamos que é real, que há um sentido. Mas nas grandes comoções, eis que surge a ponta do Iceberg do desejo e somos tomados pelo nosso desejo, o desejo do nosso papel vem à tona, o EU é o desejo. Isto é o trauma, ele toma conta, e tudo fica subordinado aquele fato, trauma é o desejo revelado, nu e cru. Não é o fato o que traumatiza e sim a versão que nosso desejo dá a ele no universo da nossa linguagem. Como nos adaptar ao real do fato ? O que dizer? O que fazer?

Lembram do 11 de Setembro?

Porque nos animamos com a emergência do desejo, quando ele é compartilhado por um fato anormal?

Somos todos filhos dele, do mesmo desejo.

Caiu um avião, começou uma guerra, alguém foi morto, um atentado, choveu demais etc. E nos nós animamos um pouco porque repartimos o mesmo desejo, a mesma Shakti. Podemos dizer: aconteceu isto, aquilo! Podemos falar sobre!

A mídia não noticia que dona Márcia encontrou seu cão desaparecido! Nós queremos ver a desgraça e se for ao vivo, melhor!

Somos perversos!

Os aposentados já caminham mais animados até a esquina, para encontrar os companheiros e discutir o morro do Alemão, os seus passos já são mais seguros, como digo para minha mãe quando ela pisa forte.

Onde foi parar o EU eterno, o mesmo eu que é o dos traficantes, do Papa, dos policiais do Bope, e o da dona Canô?O mesmo eu Meu e Seu?

Foi separado pela letra, acredite nesta verdade, pois não sei se você leitor já entendeu o assunto, ou se iluda!

Você pode falar nisso! Lembra do Isso? Agora é nosso, é nisso, é disso!


Só assim você pode falar de você!


O desejo, ele nos dá a oportunidade de falar, sentir, de ter aspirações, enfim - Tudo, pelo Isso.


Isso , uma intersubjetividade, um nosso, que é a unica possibilidade de falar de si, pelo que nos é comum.


Então encerrando por hoje: tirando eu, e você, sobra o isso, aquilo que é meu e seu mas não é o seu eu e nem o meu eu.


Aí está o EU SOU ISSO.








domingo, 21 de novembro de 2010

Separados Pela Linguagem - Parte II - O Fantasma

Antes de ler leia a postagem da semana anterior:


Mestre Bhava: Separados pela linguagem - Parte I - Introdução

Com aquela introdução da semana passada, expus os vários aspectos da mesma questão, e está claro que vou lhes levar, sem que vocês percebam, ao Tantra. Podem me acusar agora mesmo, antes de concordar comigo. O Mas,  “e olha aí a conjunção adversativa como introdução permanente a uma perspectiva de diferença conceitual”, como advertiu o meu amigo Roberto Melo, o Mas nos salva todo momento, de ser o outro, faz esta magia.

A coisa que some, merece ser burilada a exaustão e eu sou um teimoso compulsivo, que é a mesma coisa dita duas vezes. Infelizmente é longo o processo de aqui dissecar o “Mas” e o “O que”, a começar lá pela maldita campainha, que cortou o um entre dois corpos, o meu , o seu e o de todos - e o da mãe. Ali vimos que surge o desejo, desejo que surge como dor, sintoma como manifestação de uma intervenção, diferente de sinthome como a saudade de ser um novamente. O sintoma, a angústia e a inibição, este trio infernal. O sinthome de ser UM permite que a perda do Um gere um plano estrutural, e amarre para sempre , a mãe, a campainha e o sintoma. Amarre tudo como função de letra, grito, choro, e mais tarde - palavra.

A dor como sintoma inaugura o desejo como letra, o osso ióide que já fala e desliza sobre a garganta. Foi o terror do grito da morte de milhões que nos fez falar.

Milhões gritaram antes de você poder dizer bom dia, hoje!

Agora o leitor já a meio caminho de uma depressão induzida pela verdade dos fatos, pergunta: O Tantra não trata do gozo? Da felicidade? Para quê voltamos a nossa dor original?

E aí é que está a coisa toda, a felicidade é a mesma dor, o gozo é dor. O gozo é um investimento na mesma dor que separou, investimento libidinal lá na origem, tentativa de reparar aquilo lá. O mesmo Ding Dong da campainha.

Gozamos para voltar ao paraíso, ouvir de novo a maldita campainha!

E ela toca! Dez , cem, mil vezes e assim mesmo queremos ouvi-la!

Não planeje seu suicídio, ainda! Não tente outra vez! Pois antes do Nada da morte, a campainha toca, da mesma forma!

Não vá encontrar os peixes banana! Por que o ato repete a mesma campainha.

Isto está provado, pela matemática lacaniana, e no máximo, umas  dez ou vinte pessoas no planeta entenderam, e este que vos fala é um deles, humildemente.

Metade dos meus 10 leitores já clama pelo Soma. Queremos Soma! Queremos a felicidade artificial!

Eu peço que aguardem, pois ainda temos algo, podemos encontrar a felicidade no outro e o outro em nós. Há algo entre nós! E lhe digo mais, não é um novo universo de conceitos e que irá terminar na mesma campainha com um som diferente! Que em vez de Ding Dong faz Bzzzzzzzz.

Freud chamou o algo de inconsciente, e foi aí que tudo se perdeu! Outro som da mesma campainha.

Dalinianamente lhe convido a ser perverso, a ver a dor como gozo ou o gozo como a dor, depende se você é neurótico ou não!

Não sei se piorei ou melhorei para você, mas enfim, o que importa é lhe apresentar algo novo, que você, caro leitor terá que ouvir mil vezes antes de ver nisso alguma importância.

A Alma é um fantasma! Fantasma da dupla desejo-dor! A Alma é um fantasma, uma visão subjetiva de si mesmo! E por trás tem um observador passivo, que é tudo que ocorre e ao mesmo tempo não muda, é imutável. O nome dele, desta testemunha: Consciência.

O que este fantasma quer? O seu Sacrifício.

O que o desejo quer de mim? E ao mesmo tempo não sou nada sem isso. O que o “isso”, o “O que”, quer de mim?

Só sabemos quando desmontamos o fantasma a posteriori e aí sabemos que ele quer minha derrota, a minha perda!

Hoje é domingo, alguns amigos vem aqui na minha casa, portanto tenho que deixar a coisa assim:

Um significante representa um sujeito para outro significante  S¹ >$ >S², esta era a fórmula que definia tudo, segundo esta fórmula estávamos presos a uma cadeia de significantes, e o sujeito ($) tinha que representar seu eu, tipo novela de Goffman, para outro significante. O desejo é o efeito da divisão em partes, Kálas. O sujeito ($) não é senão o efeito da divisão, da linguagem, ele não existe antes. A cadeia de significantes seria o inconsciente.

Isto pressupõe a existência anterior de um sujeito, que nasce em um corpo e o anime pelos significantes da cadeia. É como um programa cósmico. Porém há aí um erro, não existe desejo do sujeito e sim sujeito do desejo, não há sujeito anterior algum. Então o Tantra nos diz que o Universo é uma teia pronta, uma Matriz, Máyá.

E com isto se explica o atamento do fantasma, o destino!

Perceberam que tudo ficou assim, sem solução? E aí é que o Tantra traz uma novidade, que vou introduzir, aqui. Sono, sonhos e Kundaliní, sim há um fenômeno reparador, que remove todos os dias o fantasma da cadeia de significantes.


Dormimos ? Sonhamos?


Então caros leitores há algo aí, algo Místico, sempre me arrependo de usar a palavra místico, é um saco onde cabe de tudo, sempre na falta do conceito, usam o místico como heurística, mas vejam que o místico aí é muito preciso! 





Segunda parte postada, 22 de Novembro




Peço paciência ao dizer que o que existe é um sujeito do desejo e não um desejo do sujeito. O desejo é que se assujeitou como tal, logo, a continuidade de Alma, do nosso fantasma camarada, é ser uma construção no tempo espaço, construção subjetiva de si mesmo. Veja que nosso sujeito, nossa Alma , já agora o nosso fantasma é representado como $, pois ele busca algo, um isso, busca ser algo, para alguém, e este alguém é em primeira instância ele mesmo!


Esta é a passagem do EU para o EU SOU, e daí para o EU SOU ISSO! de Shiva para Shakti e dai para Sadakhya, Assim surge quem se constrói subjetivamente com Ser. Se ficamos no EU e no EU SOU, temos o SER de fato, pois temos a exclusão de qualquer ISSO. O fantasma surge na criação com o ISSO, quando a realidade subjetiva se revela para si mesmo, EU SOU ISSO!


Nasce o fantasma aí, e ele é animado pela vida quando passa a uma quarta etapa, ISSO SOU EU!


EU


EU SOU

EU SOU ISSO(nascimento do fantasma)

ISSO SOU EU(atamento do fantasma)



No ISSO SOU EU surge o Ishwara, o ser que cria mundos, hábil na linguagem, pois se coloca como ser que é causa, mas na verdade,  é o fantasma falando.


Será que fui claro ao dizer que o fenômeno está entre nós, entre o EU SOU e o EU SOU ISSO?


Nesta altura o leitor estará já perdido, andamos muito rápido não foi? Fizemos muitas conexões, até chegar à prova cabal de que há algo entre o EU SOU e o resto. Eu chamei de Fantasma o Ser que vive após o EU SOU, e que vive do ISSO.

ISSO é o Objeto, ou o que ele representa como Desejo.

EU e SOU. O “EU SOU”, formam um lugar que falta o ISSO, formam uma estrutura, que ainda não se afirma, ainda não é um EU SOU EU (ISSO). Vejam que este segundo EU, (EU)  refiro-me assim a uma constituição do Moi (meu EU), porque é uma tentativa de elaboração de uma teoria que de conta do primeiro esboço de Eu que se constitui como ego ideal e o tronco das identificações secundarias, a sede do narcisismo.

É na passagem do EU SOU, para o EU SOU EU, que surge o Eu que é o MEU EU, aqui um ISSO, pois ele não é o EU, e sim o MEU EU, um ISSO, a sede do Fantasma, sua origem, digamos, Cósmica, Universal.

Então caro leitor o seu EU não é o EU em si, sacou? Nunca é. Jamais será! É um ISSO.

Você pode fazer Yoga, praticar budismo, conscienciologismo e o que quiser, mas jamais, nuca realizará seu EU, pois é um outro que se NÃO realiza, o Fantasma, o ISSO.

Há um impedimento, o SEU EU não pode ser o EU.

Então façamos agora um pacto, esqueçamos o EU original, jamais estaremos falando dele, ou sobre ele, ele é inexpugnável, inatingível! Ele é Eterno e imutável.

Assim chegamos a raiz do Tantra:

Shiva é o EU, e Shakti é o SOU. Por algum motivo este EU se manifestou, sua manifestação é a Shakti.

Eis aí a coisa, a ontologia perversa do Universo, mistério. A Shakti, manifesta o EU, mas ao manifestar para ele mesmo, EU SOU EU cria a condição para a criação, veja que não manifesta para ele mesmo, mas para algo, alguém parecido com ele, um espelho.