terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Separados pela Linguagem - Parte VI - Shiva, a Eudade

Antes de Ler, leia a Parte V




Se é o desejo que(m) faz o sujeito, é ele que pode ser categorizado. O objeto que vem do desejo é um sujeito, um Fantasma gozante, o Jiva. E, como veremos, é a sua posição o que marcará como, e por que este sujeito age.

A tese de que o sujeito seja uma Alma e que contenha nela uma essência, um núcleo espiritual, e em contraponto o desejo seja uma vontade, adquirida ou herdada, que lançaria este sujeito ou Alma em uma confusão existencial, bem esta tese cai completamente quando este sujeito , é ele mesmo o produto do desejo. Logo não existe objeto filosófico algum, que não seja o próprio sujeito como desejo, produzindo um objeto como se não fosse ele mesmo, o criador. Uma vez ultrapassada esta dificuldade inicial, em que o objeto representaria algo, que não fosse nem o desejo e nem o sujeito ou a Alma, podemos concluir que as relações e análises em que tomamos um objeto separado do sujeito, como um conhecimento, são alienantes.

A Alma é o fantasma em uma posição que nos engana ao produzir um discurso que não marca a sua posição exata. Assim não sabemos as causas e nem os motivos desta Alma buscar um gozo através do seu próprio discurso, uma vez que seu discurso não se sustenta na realidade, não dá conta dela.

É justamente esta incapacidade da Alma em ser a Consciência, que a coloca como um sujeito incapaz de assumir sua posição real, que não seja intermediada pela linguagem. Entretanto ao usar uma linguagem ela transfere seu si mesmo, como desejo para uma localização entre ela e os outros. Como todas as Almas agem pelo mesmo princípio, é este pacto mudo, sempre ausente, que ao mesmo tempo em que nos dá a possibilidade da comunicação entre nós, nos transfere a incapacidade de contradizer a nós mesmos.

Em linhas gerais todos nós nos beneficiamos do mesmo princípio: sermos intermediados pela linguagem como se fossemos nós a falar e pensar, e ao mesmo tempo ter que dar conta de uma relação com si mesmo, onde não há linguagem, onde o Signo não necessita de codificação. O Gozo como aproximação de si mesmo, mas intermediada por uma linguagem entre nós, nos aproxima da mesma Consciência, do outro, que é a mesma Consciência em nós, fechando um circuito com o si mesmo, através do outro. É gozo por que se deu através de um outro.



O Gozo é uma aproximação do Jiva,da Alma, da Consciência. Esta Consciência que é Perfeita, Benevolente, e aí introduzo para vocês um conceito novo, e que talvez você já tenha ouvido por aí, esta Consciência Benevolente, é chamada de Shiva, no Tantra.

Esta aproximação sempre se dá através do outro, pois não há como a Alma se relacionar com a Consciência que está junto a si, pois para isto a linguagem é insuficiente, o signo já faz isto diretamente entre a Alma e a Consciência. A estrutura do Gozo pede que se faça isto através de um outro, real ou imaginado. Mas é sempre um outro que outorga o encontro com o si mesmo.

           

Esta Eudade, Shiva, é o Grande Outro, designado por Lacan como o Outro. O Outro que é o mesmo nosso de todos nós.

A Consciência é uma Eudade, é o Eu, o mesmo Eu em todos nós, assim temos o outro e o Outro. O outro é a referência a outra pessoa, outra Alma, e o Outro, grafado com O maiúsculo é o Eu neste outro, o mesmo Eu em nós.

Shiva, a Consciência, é a Eudade, um eu que é perfeito para ele mesmo, uma eudade, a Eudade é a única entidade que não é fantasmática em todo o Universo.

A Eudade, Shiva para os Hindus, a Consciência, são o mesmo princípio. Princípio que não precisa se relacionar consigo mesmo, sendo a única coisa igual em todo o Universo, pois sendo a mesma coisa não precisa de si mesmo, e por isto é Eudade, Consciência ou Shiva.

Nós, como Fantasmas, precisamos ser para nós subjetivamente (para a Eudade) e precisamos ser para os outros objetivamente, vejam que nós como Jiva, como Alma, não podemos ser subjetivamente para o outro, se tentamos ser subjetivamente, seremos pelos meios objetivos, pela linguagem!

Nós fantasmas, nós Jivas, estamos separados pela linguagem!



Toda comunicação se dá por um código, código este aprendido pela cultura, e na relação com o outro utilizamos este código como linguagem. Na relação com si mesmo esta Alma precisa usar deste mesmo código, intermediado pela linguagem, como pensamento. Não podemos ser subjetivamente para o outro sem um código estabelecido, sem uma linguagem. Então toda relação é objetiva, mesmo que não pareça ser. Se este código foi aprendido e desenvolvido para dar conta de estarmos separados por uma linguagem, e esta separação é justamente a possibilidade de conhecer um aspecto de si mesmo, quero dizer, de conhecer a Eudade no outro, temos um cenário, que é biunívoco, é pelo outro que entramos em contato com a Eudade em nós. E naturalmente vem a questão se podemos ter este contato com a nossa Eudade pelo outro, porque não podemos ter diretamente em nós? A resposta é enigmática, nós estamos barrados, pois o código estabelecido foi para a relação entre nós, ela é cultural. A linguagem separa a mesma Eudade. Então na tentativa de uma relação subjetiva com a Eudade em si mesmo, a linguagem, o código estabelecido entre as Almas não serve.


A Eudade, Shiva, já é subjetivamente para ele, pois ele foi a Primeira Eudade, não havia outra, não havia para quem ser, isto é ontológico, não é milagre, é matemática. Só há uma Eudade, uma Consciência.

É debaixo deste fenômeno que nós estamos. A Consciência primeiramente foi subjetivamente para ela, se representou pela benevolência, logo, ela.... não é benevolente, ela foi, pois era para ser para ela mesmo!

Não havia separação, pois não havia outro.

A Eudade não precisa ser para ninguém mais, ela é a mesma coisa, é idêntica em todas as Almas, Não havendo nada além da mesma Eudade não existe nenhum conflito ou atração entre ela mesma, aí a benevolência é este estado mútuo, não existindo outro no Universo. Se imaginarmos uma Eudade que se divide em duas e depois em três etc, perdemos o processo, pois a primeira Eudade não necessita de dividir. Então ela não de dividiu, não vive no tempo/espaço.

O Tantra rejeita a metafísica e a criação, e adota o Emanacionismo a partir do Um, desta forma as práticas espirituais tem que levar em conta esta realidade e não outras vias de interpretação.

Shiva não é um Ser nem uma Entidade, é a Eudade que origina o Universo, é este mesmo Um que a todo momento se manifesta tanto para si mesmo como para os demais, subjetivamente e objetivamente, criando uma cadeia de eventos. Um que continua a ser bom para ele mesmo, e daí os desdobramentos lógicos e psicológicos desta Biunivocidade e suas várias possibilidades.

Este EU original, um princípio de Consciência, continua sendo UM, como subjetividade entre si mesmo, e como objetividade, entre as Almas. Logo não há uma produção de EUs iguais a partir do Primeiro Eu, o Eu, a Consciência é a mesma, sempre foi e sempre será a mesma. Assim o Eu de cada um de nós é o mesmo Eu original, como Principio de Consciência, portanto este emanacionismo é aparente, este EU não mudou e jamais mudará, pois é o mesmo, sempre, não havendo a necessidade de ser outro. Logo, este Eu está presente e ausente em todas as estruturas do universo, na matéria, como Unidade alheia ao espaço/tempo, portanto imutável.

Um átomo, uma partícula sub atômica, ou em uma galáxia, há o EU, cujo fundamento é a imutabilidade, mas em cujo campo as transformações são possíveis. Desta forma não existe uma evolução do EU, nem mesmo sua criação, ele não é um evento, é um Ser que é eterno, imutável. Nem mesmo de Deus podemos chamar a Consciência, pois um Deus cria, interage, e neste caso é sua presença como imutável, que produz a matéria e conseqüentemente a psique. Assim esta consciência, este EU já existia muito antes da matéria e da psique, existia e continuará existindo da mesma forma – imutável.

O que é isto? Com o que estamos lidando? De que é feito? São perguntas feitas pela razão que tenta entender este fenômeno chamado de Consciência. A matéria e seus fenômenos absurdos, e a psique como a construção de um si mesmo, que se nomeia, como ser e produz um conhecimento, tanto sobre a matéria como a física e sobre si mesmo como a psicanálise, são eventos secundários da Consciência. Hoje a física quântica mostra que a matéria não é um fenômeno isolado de nós, basta observarmos a matéria e ela reage a nossa observação produzindo outros eventos.

           

Eu posso ser bom para mim e ser mau para o outro,também posso ser mau para mim e bom para o outro, veja que ser "mau" não é ser mau, mas sim, não ter o mesmo julgamento. O outro é a introdução do terceiro e sobre isto que vou lhes falar.

Basicamente temos duas posições: Sou bom para mim e não uso da mesma medida com o outro, então sou “mau” para o outro, esta é a via perversa. A outra via é quando sou injusto, “mau” comigo, e bom para o outro, e assim sou neurótico. A diferença é lançada no outro ou ela é lançada em mim. Jamais na Eudade.

A realidade como ela se apresenta para nós nos deixa uma via dupla de interpretação tanto de si mesmo como do outro. A Alma faz o papel de ser alguém, produto de uma cultura e de um grupo social como a família. Mas na relação com o outro, se reproduz uma verdade Universal, biunívoca, em que aprendo ou ensino, ou em que sou neurótico, um aprendiz ou um mestre, um perverso. A Consciência, o EU, Shiva, é apenas uma presença, tudo que percebo é percebido pela Alma, pela ínfima parte que capturo da realidade, quando emano um saber ao outro e quando recebo o saber do outro. Tanto o saber da Alma como a matéria são lados da mesma coisa. Isto é a Biunivcidade, o Tan e o Tra. A expansão perversa e o retraimento neurótico.

Na posição Neurótica procuramos na Eudade do outro, um saber que complete a nossa incapacidade de ter acesso subjetivo a si mesmo, e na posição Perversa nós nos colocamos a serviço do Gozo da Eudade. 

Dois neuróticos, se colocariam os dois na posição de buscar na Eudade do outro a posição negada em si mesmos, e dois perversos os dois se colocariam a serviço do gozo da Eudade do outro.

As relações entre as Almas, são as relações da alteridade do saber, a intermediação produzida pela presença da mesma Consciência nas duas posições. Como fica barrado o nosso acesso a “nossa” Consciência, ao nosso EU, pois este acesso se daria por um código de linguagem, por um código da cultura, pactuado entre as Almas; mesmo que este acesso seja feito sempre de forma subjetiva, esta forma subjetiva não sacia a Alma, pois não produz um saber que possa ser levado ao outro. A solução é a co-participação, um saber que se completa no outro como a posição perversa e o saber que se completa em nós como a posição neurótica.

Este é o dilema Universal, e o amor é a alteridade das posições do par.

Portanto agora nós podemos voltar ao Gozo, que não é ser a Eudade, mas ser o mestre da diferença (e quem é o mestre da diferença? O Jiva, o fantasma). No Gozo parece que ganhamos algo, mas na verdade o que ganhamos foi o poder de ser para um outro, o Gozo goza na posição do outro, ele é a prova irrefutável da existência da Eudade.

Esta biunivocidade explica o comportamento cruzado na busca da Eudade, através do outro. Logo, existem dois meios de gozo. Pela Eudade no outro, e pela Eudade em mim mesmo. O saber ou o conhecimento é buscado no outro ou o saber é levado ao outro.

O gozo atende a posição criada por mim de biunívoca, pois se faz pelas duas vias, a da Consciência ou a Eudade no outro e pela Consciência ou Eudade em mim mesmo, como a  via Perversa e Neurótica. Na cultura oriental Shiva ensina a Shakti e Shiva aprende com a Shakti, confirmando a minha contextualização.

O conhecimento é a conexão subjetiva que fiz com minha Eudade, significada pela linguagem, então já objetiva, mas que não se mantém, pois quem age e faz é o Jiva, um produto, um resultado do Um e não o Um.

Ou preciso mostrar para um outro que fiz esta conexão comigo mesmo, ou preciso buscar no outro esta conexão.

Ora, quando temos uma experiência de si mesmo (de termos sido a Eudade) nós a perdemos no tempo, a ponto de ter que mostrá-la para o outro ou buscá-la no outro, temos os dois momentos que são lados do mesmo Jiva, a alteridade da biunivocidade.

Encerrando por aqui, pois a cabeça do leitor deve estar fervendo, posso então caracterizar o Gozo como a alteridade das posições.


Como Fantasmas, para sermos subjetivamente para nós, nós precisamos ser objetivamente para os outros. E ser subjetivamente para os outros para ser objetivamente para nós.

Está aí a Etimologia do Gozo - separados pela Linguagem. A moeda de troca é o Signo, vestido com uma letra que significou subjetivamente a Eudade, e um Signo nu, sem significação, que a busca na letra do outro.

Assim posso lhes revelar o significado de Signo como Falo, como o Linga no Tantra, o falo evanescente que produz o Gozo é o Signo representado por Freud como o Falo da castração Freudiana e como o Signo da castração em Lacan. O Tantra nos diz existirem três Lingas (falos), um físico, um emocional e um outro cognitivo, um ligado aos genitais, outro ao coração, emocional e um terceiro ligado a cognição. As necessidades da Alma como corpo, como emoção e transcendência.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Separados Pela Linguagem - Parte V - O Tantra

Antes de ler leia a postagem anterior:



Assim eu creio que consegui conduzir você leitor até um ponto interessante, e que é o objeto da psicanálise e do Tantra – o Gozo do Real. E não me contenho em dizer, o Gozo Real, “a coisa toda boa” como dizia um discípulo meu.

Exatamente isto é a Biunivicidade, o Samádhi Hindu, o gozo sem objeto. O malandro Patãnjali já colocava as duas formas de gozo, um com objeto e outro sem o objeto. Mas o problema não é tão simples como nos insinua Patãnjali. Como gozar sem objeto? Alguns estudiosos do yoga, os teimosos em ver alguma coisa lá, dizem que é uma percepção especial, o tal gozo sem objeto.?????????

O Tantra não luta com o conceito, não rivaliza com a filosofia, pois nele o Gozo do sujeito com seu objeto é um gozo embrulhado com o real, mas não há nada de errado nisto, embrulhado ou não, é Gozo.

Não se preocupe caro leitor, ninguém está gozando errado, nem incompletamente, nem parcialmente, como se houvesse um Gozo Real, e um ilusório. Como se houvesse uma gestalt perfeita para ser encontrada por aí, e você não a encontrou!

Com isto entramos no assunto, na Biunivocidade, o gozo não encerra, mas recomeça, ele reinicia a Alma na cadeia significante da letra. Dá ao Jiva a sensação dele existir de fato como Consciência. E de fato, o gozo dele é o de atingir um metadesejo – o Gozo é a experiência em si.

Com objeto ou sem objeto o gozo(sic) é um desfazimento da letra, da nossa separação pela linguagem. Ilusão é buscar um Mais-gozar, um gozo além de si mesmo, como se o gozo da Alma não fosse espiritual.

Então não é gozo que pode ser colocado em categorias, com ou sem objeto, não. É o desejo, este sim, o desejo que faz o sujeito, é ele que pode ser categorizado. O objeto vem do desejo e não do Gozo.

E isto somente muda quando o Jiva, a Alma, coloca o desejo como uma experiência e não como conhecimento, quando a Alma coloca como uma experiência de si mesmo. Experiência esta que não é um ganho, mas uma expansão em direção a Consciência.

Resumindo o Jiva, o fantasma, a Alma,  é um experienciador da Consciência. Sem ele não há experiência alguma.

Nós como Almas estamos desempatado o jogo; e o EU, a Consciência, empata, ela sempre empata o jogo.

Desta forma é que nós podemos ser um Avatar da Consciência. O Jiva é a consciência e depois voltar a ser a Alma, e sobre esta viagem, é sobre isto que o Tantra nos fala. Eu, você, todos, podem, como Jiva, ser a Consciência no Gozo, mas antes do gozo, e depois dele não. Logo não há um objeto, o sujeito, o Jiva, ele é o Objeto da Consciência, este é o caso!

O Jiva quando sofre um gozo está junto da Consciência, naquele instante e depois volta para a linguagem, volta para seu lugar na cadeia significante.

Logo estar de posse de um corpo físico, de uma psique, para a Consciência, é estar experimentando ser daquele jeito específico. O que quero dizer é que o Gozo é uma ausência de significado para uma experiência, a ausência de linguagem!!

Assim posso começar a lhes dizer que não há transcendência alguma que não seja a da linguagem e que o Jiva é um ser da linguagem e em todos os momentos, e com isto, sou obrigado a lhes levar ao Tantra novamente. Que  momentos são estes?

Antes, quero lhes dizer da grandeza de um homem chamado Freud, ele foi o primeiro, a abordar onde o homem desfaz sua linguagem, ele foi o primeiro a conferir aos sonhos um status de uma outra vida da Alma, do Jiva.

O Jiva vive na vigília, no sono e nos sonhos, e vive vidas distintas!

A vigília, Jagrata, o estado de sonho Svapna, e o estado sem sonhos do sono,  Susupti.

Como a filosofia ocidental pôde ignorar os sonhos e o sono?

Na vigília e nos sonhos nós somos o desejo de sujeito e o sujeito de desejo, respectivamente. Nós invertemos a posição, ciceroneados pelo sono que faz a ponte entre um e o outro estado.

Sonhamos para poder dormir, e dormimos para poder sonhar.

Nos sonhos nós somos os senhores da mente, da situação, o desejo pode se transformar pela imaginação em várias formas, continuamos sendo o sujeito do desejo, o desejo se altera e nós continuamos nele. Na vigília temos o desejo do sujeito, o sujeito preso ao desejo, e aí é o sujeito que muda, para atender o desejo, e mudar, pela linguagem!

No sonho nós somos o mesmo sujeito, na vigília criamos a possibilidade do outro, trasnferimos, mudamos o sujeito e não o desejo!

Na vigília, nós temos o Signo, como a letra, ela manda no sujeito; já nos sonhos temos um sujeito em que o Signo escapa da ditadura da letra, não age mais pela letra, mas pela imagem em ação.

No sonho o sujeito do desejo é capaz de surfar pelo signos, rompendo com a linguagem, com a letra. Ele é o senhor, ele é o sujeito do desejo, ele assume o controle sobre o conceito. Cada signo sonhado revela um outro e um outro... que veste o mesmo desejo, veja que isto é fundamental neste estudo que lhes apresento, o desejo é o mesmo, mas sua roupa, é que é outra. Isto é o fetiche.

Nesta altura já podemos dizer que o Jiva vive três experiências distintas, a vigília, o sonho e o sono.

A vigília é um transe com o mesmo desejo, que faz com que o sujeito seja outro e outro, precisa se negar para pensar, transferir...; o sonho é um transe com o mesmo sujeito, em que o desejo é vestido de formas diferentes!

O sonho é uma experiência de ser a Consciência! É um gozo em que o sujeito testemunha, o único momento em que escapa da letra. Jiva Mukta, é a Alma liberta.

E aí o leitor pergunta: O que isto tem a ver com o Tantra?

A resposta é o fenômeno, ele alterna os dois estados, a vigília e o sonho, este é o significado do poder serpentino, que pode ir de um plano ao outro, da terra ao vazio e do vazio para a terra. Pode colocar o sujeito como produto ou causa. Pode colocar o sujeito junto (Samádhi) com a Consciência ou levá-lo ao extremo, separado pelo alfabeto.

Concluindo, já é tarde, não é o objeto que muda o gozo e sim o Lócus, o lugar, o lugar em que o Jiva está. Na posição de vigília ele não pode mudar o Signo, ele está preso a ditadura do significante, e tudo que ele pode conhecer é um outro lugar no mesmo sentido, sentido este dado pela linguagem. Como faço agora com você que lê.

Pode ser que você se anime por um ponto de vista novo, mas não se engane, qualquer lugar na cadeia significante é um lugar previsível, possível , não escapa do sentido.

E com isto eu creio ter lhe dado uma base para entrar no mundo no Tantra. Da imaginação produzida por um tipo de experiência muito especial, a capacidade de sair da vigília para estar junto da posição de Consciência e depois voltar ao mundo, renovado.




sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Separados Pela Linguagem - Parte IV - O que o desejo quer de mim?

Leia antes a postagem da semana passada:


Mestre Bhava: Separados Pela Linguagem - Parte III - O desejo


O que o desejo quer de mim, quer do fantasma? Quero dizer que a vida não é mítica e nem "espiritual" , ela é fantasmática, a nossa Alma é um fantasma da letra. Ela se fez pela letra e desaparecerá por ela. Todas as nossas escolhas são alienações na cadeia fantasmática, tudo ilusão como diziam os sábios indianos.


O fantasma ou a Alma é uma construção no vazio, um falante que não sabe porque fala e age. Este fantasma, chamado pelos indianos de Jiva, uma alma sedenta de sangue, isto é, sedenta de ser alguma coisa que lhe dê sentido. Sangue é vida e blá blá blá.


Ela não é nada sem o Isso, tudo que ela é , é um Isso, ou um aquilo, ou por causa disso. Vive em uma atitude sacrificial de se sacrificar por causa disso, por causa de um Isso, que ele não sabe o que é.


Resta ao fantasma a confiança no criador, pois ele deve saber a causa disso? O que quer de mim este desejo?


Mas podemos enquadrar este fantasma, podemos sim, podemos desejar não ter nascido, não ter nascido para Isso, me compreende? Podemos por um fim a este encadeamento fantasmático, fazendo um voto de não nascido. Não é um negar-se, mas por fim ao Isso como a massa encadeante do nosso desejo, um fio de significantes prontos para nosso uso. Usar a Matrix da mesma forma que ela nos usa, vendo claramente o que o Isso quer de mim. O sacrifício da submissão.


Não sabemos exatamente o que ele quer, sabemos que ele quer minha aniquilação, lenta, branda, longa e extensiva, até que as minhas forças mentais se esvaiam por completo e eu aceite um Isso, como salvação. 


O voto que fazem os Tantricos da Índia antiga era este voto de não ter nascido, quebrando a ditadura da letra, de um Isso - Sannyas. Este voto é a unica saída lógica da alienação, em um desejo de um Isso que me sujeita a algo, alguém, alguma coisa, tempo ou espaço.


O Jiva, o fantasma, ele se ata no encontro , na busca da experiência de buscar sentido e criar uma aparente coerência entre o que o desejo quer de mim e do outro, dando a vida um ritmo, já lhes falei do ritmo, e de sua trampa homogênica.


Então está descoberto, o desejo que o gozo busca é um desejo compartilhado, um Isso, que me destaque de todos, mas me mantenha no rebanho. Para isto servem os elogios, o outro me mantém na coleira universal, o Isso. Por isto fugimos de um Gozo servidor, ele nos mostra que o Isso, é um fantasma, e o que o seu desejo quer de mim, é impedir minha emancipação!


Se o desejo é justamente o que me boicota como Consciência, me embaralha com a realidade, me coloca em um lugar na cadeia de significantes. Não posso calar a cadeia de significantes, nem posso negá-la, sou impotente, quem fala, age, pensa, é o Fantasma, pela letra.


Sabendo que o que o desejo quer é o meu sacrifício, em troca ele me dá a possibilidade de Gozo, de ser alguma coisa, de ser alguém - para os outros.A moeda de troca é o Isso.


Não posso negar o Isso e nem ser cego e aceitá-lo, mas posso pelo voto de não ter nascido, poder ter as duas coisas.


O Isso e Eu, posso ser biunívoco, viver pelo Sannyas! Sempre ao lado, veja bem a expressão, Samadhi, significa estar ao lado, junto à Consciência.

Ao lado, ali, sendo um fantasma, que pelo Isso, é a Consciência e não é ao mesmo tempo!


Vejam bem leitores que eu não disse "O que o Fantasma quer?", e sim, "O que o desejo quer de mim?"


Veja que não há  um Desejo do Sujeito e sim um Sujeito do Desejo, este, é o Fantasma, o Jiva, é sobre ele que falaremos, sob esta perspectiva!


Final da parte IV.



A inversão entre o Desejo do Sujeito e o Sujeito do Desejo, coloca o Desejo como ontologia do Sujeito, como origem e fim.


Esta operação, a inversão da causa, que passa o Sujeito para a posição de produto do Desejo, de  letra, e de cadeia significante, ou se desejar - o Ser. Este é o Ser. Ele não pré existe, ele é produto da intervenção de um outro, entre a Mãe e o futuro sujeito, ali, quando há o corte, a intervenção, feita pela campainha, no meu exemplo foi a campainha que tocou e fez a Mãe retirar o bico do seio da boca, do seu filho, e isto representa um corte, se assujeitar a um poder maior, o tal Nome-do-Pai.

Ali nasce alguém, um sujeito que vem do desejo de não ter sido interrompido, cortado, ou castrado. O desejo é o Medo, Medo da castração. Mascarada pelo Isso, por um sentido no mundo, a letra, as palavras, “A Campainha tocou”, são o Isso do mundo, o nosso link intersubjetivo com todos e conosco. Esta ultima afirmação é que é Capital, o “conosco” é aí que fraudamos o Real e criamos uma existência subjetiva para nós, um SER. O nosso Fantasma, daqui para frente eu o chamarei pelo nome que os pioneiros desta investigação lhe deram – Jiva.

Não há problemas na relação com o Isso, ele representa para nós o que representa para todos, pense bem. Todos vivemos sob esta mesma lei, a ditadura da letra. Esta estrutura vai bem, na infância, e na adolescência começa a dar sinais de que não dará conta de ser, e depois na fase adulta, em que aceitamos o jogo, temos que fazer o jogo, inclusive para nós mesmos, pois é como pensamos, elaboramos, e temos um sentido na vida.

É esta representação para nós é que é falha, pois submete o Isso a uma categoria, que intersujetiva, que é de todos, perceberam? Tornamos assim o Isso no nosso desejo, algo nosso, como se ele não fosse anterior, como se ele não fosse compartilhado com todos, este é o Eclipse da Consciência e o nascimento do Jiva.

Desta forma, é que o Jiva, é a negação da Consciência, do Todo, pela parte, quando tornamos o Isso de todos em algo nosso, o seu desejo. É, aí que ele vive, é aí que ele se faz pela letra, pela linguagem.

É aí que o que representamos para nós com sendo nosso, exclusivo, pessoal, se faz pela letra, pela mesma letra do outro, exatamente isto é o Isso.

Logo não podemos nos representar, não podemos existir subjetivamente, e exclusivamente, enquanto usarmos do mesmo meio, que os demais usam. Não podemos nos representar realmente.

Então, estamos diante da Biunivocidade, a representação para os outros, e para nós mesmo.

Cada palavra, cada pensamento, tem dois lados, o lado do Jiva que representa para o mundo e o em que ele é representado pela Consciência. 

Ele representa o Desejo, e não ele mesmo, isto quando ele sabe que é representado pela Consciência. Este é o ponto.

Desta forma o Jiva é o Sujeito do Desejo e da Consciência. Biunívoco.

Logo, eu (Jiva) falo pelo Isso, para a sua Consciência e você fala pelo Isso para a minha Consciência, mas as duas, são e serão sempre a mesma Consciência! 




Da mesma forma que uma foto termina na sua borda, a letra termina com o tempo, o tempo cala a letra pela borda do eterno. O espaço da borda limita o campo e o tempo limita a linguagem. Isto significa que o Jiva vive de partes, de um ponctum no tempo, e aí lhes início em outro termo, é o que significa este Ponctum, Bija.

Simbolizado por um ponto, o Bija é o momento em que o Jiva existe no tempo. O Jiva é um ponto na grinalda de letras do alfabeto da existencia, ou seja, o Jiva é Bindu das Mátrikas, esqueci desta palavra mátrika. Ela é a letra viva, dita, pensada e falada. Bija é uma conta do rosário, no Japa-Mala da vida. Cada Bija é um Jiva, ligado a outro pelo mesmo fio, pelo mesmo sentido de ser, pelo Isso. Isto é a cadeia fantasmática, de Jivas.

Não sei se estou indo rápido demais, mas é isto. 


No momento em que cada Jiva existe, ele também é Consciência. Logo, o Bindu representa o Jiva e a Consciência.

Podemos já... ir deduzindo que o Jiva evolui, se transforma pela cadeia fantasmática do Japa Mala da vida, sendo uma pessoa diferente, mudando todos os dias, melhor dizendo; mudando todas as noites, pois é o sono e os sonhos que fazem esta adaptação.

Se o Jiva não mudasse ele seria a Consciência, o EU. Ele se transforma na cadeia de significantes pois está sob influência do fenômeno, que o faz ser pela letra, pelo Isso e não pela Consciência. Exatamente este fenômeno que o faz evoluir, que é chamado de  Kundaliní.

O Jiva tem o poder de tomar as letras e delas criar mundos, enfim, falar e pensar. Mas o fenômeno Kundaliní as desfaz e o aproxima de sua natureza Real - dele ser o mesmo em todos os outros. Por isto Kundaliní desfaz o alfabeto, é a engole letras, ela  ilumina o Jiva, o leva para uma viagem através das suas imagens e símbolos. E pelo sonho e sono o devolve, são. Faz a sua cura diária. Se assim não fosse todos nós enlouqueceríamos em uma semana.

A idéia do Tantra é esta, fazer este poder, fazer este fenômeno agir. E agindo ele repara o Jiva e o coloca junto a Consciência novamente.

Então, quando Kundaliní dorme o Jiva acorda e quando o Jiva acorda Kundaliní dorme.

Portanto, o caro leitor, pode agora, entender o que significa a Biunivocidade.